[Resenha] – O Mundo assombrado pelos demônios de Carl Sagan6 min read

O livro que todos deveriam ler.

Eu não gosto de ser enganado. Essa frase deve estar na memória de qualquer pessoa, porque acredito que ninguém gosta de ser enganado. Apesar de saber que a maioria das pessoas curte uma little enganação de vez em quando, seja naquele aniversário surpresa que você, desagradavelmente, escondeu o que estava fazendo com mentiras simples, ou naquele dia em que você disse para seu pai que iria comprar pão e voltou com cinquenta centavos a menos e um bombom. E as novidades no Brasil são as campanhas políticas limpinhas que passaram pelo lava-jato. Essa ultima faz as donas de casa reclamarem muito da corrupção do país enquanto estão aguardando o ônibus que pagarão com o vem do seu filho estudante.

Além dessas enganações físicas, os religiosos e os amantes de microfone te entregam as ilusões. Já não basta conviver com um presidente loiro “semicareca” ameaçando a segurança da sua vida numa briguinha birrenta contra um outro “semicareca” coreano que parece possuir a síndrome da escola particular, onde o menino vive para ser melhor do quê o coleguinha. Precisamos ir além, e em pleno século XXI um vaqueiro molha uma toalha com seu suor e cura hemorroida com uma passada só. O cego consegue ver, a véia volta a cagar e a injustiça é cometida contra o pobre curandeiro do copo dágua. E se você não quiser acreditar, ao menos terá que concordar comigo que, se você voltar a cagar, não é culpa do seu corpo entupido de merda querendo colocá-las pra fora, porque é lógico que foi um travesseiro ungido deitado sobre seus intestinos.

Os muitos malucos da terra, enxergam o mundo sob os devaneios de sua mente e sabem disso. O problema é que a atenção só é conquistada quando existe algo a mais no desconhecido, um E.T., um objeto não identificado, Jesus, Santa Maria, Nossa senhora Aparecida… os monstros caíram em esquecimento, porque já não é legal ter medo de um monstro basta enfiar duas balas na cara dele e pronto, mas não as mentiras épicas e admiráveis moralmente. Dizer que viu um extraterrestre é o mesmo que dizer que agora pode ser um cientista famoso, pode ser útil para algum estudo importante, pode até ter seu nome impresso em livros e jornais. Dizer que viu Jesus é honroso, mesma coisa com a Santa, tanto que há pouco tempo canonizaram as crianças que supostamente viram a santa, com apenas provas de suas palavras.

E isso se repete a cada dia. O livro começa com esse tipo de ignorância surgindo inocentemente em uma mente que poderia adorar a ciência como um todo, porém estava acostumado e manipulado pela pseudociência acreditando em Atlântida e outros mitos maiores. Essa discussão começa com o motorista que pega Carl Sagan no aeroporto, e começa curioso para saber se Carl Sagan era realmente Ele. A reflexão continua e até inspirou minha trajetória como professor, pois dentro da ideia Carl menciona a falta de incentivo que teve diante dos professores da escola. Os professores nunca o incentivaram a motivar sua curiosidade pela vida, pela ciência, ao contrário tentaram o separar de sua imaginação para o enfiar em moldes prontos como Pink Floyd já nos mostrou: “Hey, teacher leave them kids alone, all in all, you’re just another brick in the wall“.

Mas Paulo Freire nos disse como ensinar de verdade, apesar de eu saber que na minha mente tudo parece bastante óbvio, preciso citar quem trouxe as ideias primeiro. Não temos que entregar uma informação de qualquer jeito, eu não posso exigir de um aluno que tire uma boa nota na prova se a única forma que tenho para apresentar um conteúdo são as repetições de frases e interpretações de quem já disse alguma coisa.

É como pegar o teorema de Pitágoras e ignorar que ele teve sua motivação perfeita, teve curiosidade, e provavelmente uma felicidade magnífica ao descobrir tal padrão no planeta, para ensinar aos alunos de forma cinza que aquela merda da hipotenusa também tem que estar ao quadrado. Não se fala do início, da observação, do padrão, da necessidade do padrão, porque todos estão muito preocupados em dizer o que alguém disse e não estimular a fala original, com observações de fato aprendizado. Uma palestra em sala de aula quase sempre é o reflexo do aprendizado escolar, aonde o professor apenas vomita o conteúdo que aprendeu a decorar sem brilho e sem originalidade. Alguns outros tentam se destacar e por conta do sistema, fazem da sua originalidade piadas no contexto. Para o aluno, o melhor professor é o que alivia o conteúdo fraco.

Carl Sagan sabe de tudo isso melhor do que ninguém. Sua mente científica se formou diante da beleza da curiosidade e do esforço feliz que vem logo após a aceitação dessa curiosidade. O livro segue nesse contexto de exibição de informação “pseudocientífica” e a explicação mais evidente que pode chegar a conclusões lógicas e verdadeiras. Mostrando que o deus das lacunas só está presente na mente de uma pessoa cientificamente analfabeta.

Os E.T.s inventados, as cutucadas sexuais e todas as plantações de milho desenhadas geometricamente com pedaços de madeira, estão no brilhante repertório de demônios explicados e destruídos nesse livro. Se você acredita em conto de fadas, e gostaria de saber se pode existir uma sininho cintilante para lhe agradar, mergulhe no contexto do método científico mais puro que existe de forma comum, de fácil entendimento. A ciência é como uma vela no escuro, que acende e te acalma revelando que o monstro do seu medo é apenas uma cadeira imóvel.

Um dos maiores propagadores da ciência, escreveu esse livro esperando que a sua vontade de não ser enganado encontre um motivo para viver mais. Os curandeiros de plantão, os charlatões da meia noite e os vampiros malignos do dízimo não devem gostar do efeito esclarecedor que esse livro traz para a sua mente. Se sua visão permanece turva e escura por entre os medos e as dúvidas entre a sua dificuldade em ser cético e a sua vontade da obtenção de respostas mágicas, conheça o livro que te colocará no chão e trará para você um alívio para dormir tranquilo, sabendo que os demônios são apenas imaginações ou criações infantis da nossa mente sedenta pela atenção mágica do sobrenatural.

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