Tempestade4 min read

É uma noite chuvosa – sempre é. O coaxar dos sapos pode ser ouvido do meu escritório. As luzes estão desligadas, pelo mal serviço dos distribuidores de energia elétrica da cidade. Em nenhum outro lugar a energia da região se vai dessa forma, com poucos minutos de queda d’água. Preciso me levantar e ir embora, pegar uma bicicleta e pedalar tentando replicar a sensação de aventura que a imaginação atrai e a simplicidade da cidade me impede de sentir.

Não posso simplesmente dizer que vou conseguir caminhar normalmente, afinal estou aqui agora escrevendo essas palavras de desabafo sem sentido. A noite só parece piorar, a tempestade não para. Aqui, no escritório, o frio deixado pelo ar condicionado ainda permanece, e o silêncio é o que me atrai agora. Sigo como um inocente qualquer que não consegue deixar de lado suas virtudes éticas para ampliar o seu quadro de amigos.

A tempestade que cai não diz respeito apenas à água que cai quimicamente transmutada. Diz mais sobre o que eu sinto. Uma tempestade de confusão, dúvida e complicações. A receita para a certeza não está comigo e não parece seguir para o final dessa atroz tempestade. Eu me revelo como um ser solitário, pelas circunstancias traumáticas da convivência social. Um ser que busca o abandono das relações comerciais, e apenas com intuitos comerciais. Sim porque, além de saber que a vida é feita de trocas, as pessoas comprovam que a humanidade esperada consiste nessa terrível selva de interesses pessoais.

Talvez a tempestade tenha a ver com decepções. Acreditar em alguém, elogiar alguém, e não saber o que ele pensa de você pela covardia da sua humanidade que não consegue ser vencida por um mero momento de sanidade moral. Uma confissão. Um pensamento exposto como a pura verdade, a verdade nua e crua – como dizem por aí – não é tão difícil quanto parece. Basta saber se o receptor aceita posições negativas como simples e comuns. Porém, esses alguéns não sabem como trabalhar com a sinceridade, andam como cobras rastejantes e desprezíveis a espera de um momento tranquilo e ingênuo para atacar.

Ainda tenho que me levantar da cadeira. Ainda tenho que apertar o botão de desligar que iniciará o processo de regresso a minha casa, porém isso não é vantajoso para o momento. O retorno será cansativo, o que me aguarda é uma favela com as ruas inundadas e os vizinhos encharcados de cachaça. Um ambiente de ninguém, sem respeito ou sem qualquer tipo de pensamento proveitoso. Eu chamo de pessoas normais, no entanto o que os define assim é completamente subjetivo, podemos falar de várias ciências prontas para expressar suas verdades sobre o homem comum, no entanto isso não me interessa, afinal o conceito é meu e exclusivamente meu.

Tento então dar algum sentido verdadeiro a este raivoso texto. Um desabafo poderá ser a ideia final, mas seria só isso? Para escrever assim, 480 palavras sem pausas dramáticas e pensamentos externos, eu precisaria de um bom motivo, e posso encontrar mais de um agora mesmo. Como por exemplo, o fato de estar tentando fugir dessa confusão mental de incerteza, ou o fato de estar tentando fugir do convívio enjoado dessas pessoas, ou talvez o simples fato de querer me tornar diferente dos que aqui julgo. Todos podem ser motivos perfeitos para uma boa história, mas aqui eu não tenho histórias para contar, apenas pensamentos, loucuras, talvez, mas garanto que o ponto aqui se encontra no que eu pensei ser a parte mais próxima de mim mesmo, a parte intrínseca que quase ninguém conhece.

Expor isso assim poderá ser uma boa ideia para a ruína do sociável, mas espere… eu não sou sociável, mal tenho amigos… Claro que por algum motivo óbvio para mim, como por exemplo a traição constante. Se eu for contar a vocês todas as pessoas que quero distância, poderiam ficar chocados assim como eu fico, as vezes, quando me encontro diante de uma parede com enormes letras dispostas que formam a palavra incerteza. Sim, quero saber se essa lista faz algum sentido, se eu sou o verdadeiro culpado ou se eu sou o verdadeiro justo. Isso parece que nunca irei saber, pois para saber precisarei ser útil, e para ser útil o reconhecimento precisa existir em uma escala maior. Realmente parece que nunca irei saber. Ainda mais se eu descobrir que a maioria não para por onde eu já andei.

Tomei um pouco de coragem, vou desligar o computador e seguir em frente. Aguardar em algum lugar o fim da solitária chuva. Vou ter de compartilhar com ela esse sentimento de agora, e sei que o vento frio fará o seu papel de intensificador. Enfrentarei.

Curta e compartilhe!