Silêncio, o combustível pode acabar3 min read

Um certo dia tive a vontade de escrever. A intenção tinha o mesmo significado da vontade, eu só queria escrever. Comecei quando o mundo, pra mim, era hostil, quando tudo parecia escuro demais para enxergar. A minha introversão tornava-me incapaz de proferir quaisquer palavras argumentativas, ainda mais quando alguém que eu julgava superior se apresentava no momento. Geralmente não suportava o contato com os professores, com os alunos, com os vizinhos – com seres humanos. Eles me pareciam ruidosos demais.

Alguns anos se passaram e tive de optar por conhecimento, a introversão se foi, o medo das pessoas se foi, porém o fervor da coragem de enfrentá-las surgiu como um Buff de MMO. Hoje sigo olhando para os lados. Lendo o que posso ler, já que o mundo para mim não é mais escuro. O problema é que a capacidade dessa leitura clara, me mostrou uma essência tenebrosa, uma humanidade quase sempre difícil de se conviver, para tentar não ser rude. As mentiras emanam uma luz bruxuleante quando postas romanticamente em uma expressão artística. São necessárias ao ponto de não magoar, mas desnecessárias ao ponto de magoar.

Observei com indignação a corrupção, mas não me contive em palavras. Passei a trabalhar, estudar e a tentar encontrar uma solução mais prática para essa tal corrupção. Analisei pessoas comuns, livros, pensadores, filósofos, críticas, direita e esquerda. Descobri o sentido socrático do saber, pois indico com humildade que de nada sei para replicar esse conceito. Comecei a querer falar, ensinar, explicar, incentivar pensamentos de liberdade nas mentes binárias das pessoas. Comecei a dar aula, estudar Paulo Freire, Sartre, Edgar Morin… Aprendi que o homem primeiro existe, depois se define. Aprendi que, portanto, a corrupção, a mentira, o jeitinho provinham de uma essência falsa, surgiam das dificuldades, dos problemas, da falta de oportunidades e da ansiedade ao conseguir.

Me vi relembrando os tempos em que a comida era escassa. Me vi acreditando então que poderia escrever, não só para mim, não só para clientes, mas poderia escrever ideias, explicar de outras formas. Me vi interagindo em causas sociais, pensamentos amplos. Me vi como professor, pensador, escritor de apostilas interativas com conteúdos capazes de criar o tão sonhado senso crítico, capazes de elevar a tão sonhada curiosidade. Comecei a pensar que as boas ações bastariam para modificar e extinguir essa corrupção, mas esqueci de prever que os corruptos também aprenderam a manipular, além dos ofícios de sua natureza social.

Esqueci de olhar para os corruptos mais experientes.

Já devo ter dito por aqui que sou professor, além de outras coisas. Isso apenas serve para lhe situar no contexto deste blog, mas o título de nada adianta se não for útil o suficiente. Digo isso por conhecer os títulos de várias pessoas que enchem a boca e proclamam ardentemente a sua independência quanto profissional, mas falam com tanta força que quando precisam agir ficam sem combustível. Para abastecer alguém precisa girar a tampa do compartimento que da acesso ao seu ego e massageá-lo com carinho. Pra esse alguém eu guardo meus esforços.

E se voltarmos para o conceito do início, eu continuo a escrever por querer escrever, e não deixo de passar essa vontade para os outros. Mas o que venho aqui fazer é desabafar. Nada além disso.

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