Ser sociável não é tão fácil assim3 min read

Alguns problemas para resolver, tive de usar o Uber para a locomoção. Ao entrar no carro, pensei em algumas coisas, mas não tinha nenhum assunto interessante para tratar com o motorista. Isso seria esquisito, andar mais de trinta minutos com um desconhecido sem proferir uma palavra.

Foi aí que lembrei de algo que me incomodou a um tempo. Era um assunto que todo motorista de Uber deveria estar por dentro. Olhei ao redor, pensei mais algumas vezes sobre a pergunta e concluí que eu não tinha nada de bom para falar, teria o silêncio mesmo como solução. Mas algo me fez agir por impulso:

– Os taxistas pararam com as perseguições?

O motorista olhou por um instante, e deu um sorriso meio esquisito. Desconfiei que aquela pergunta era o que ele mais ouvia dentro daquele carro. Pensei que por não ter nada para falar acabei repetindo assuntos de todos os outros passageiros comuns. Ele me respondeu com frases prontas sem profundidade nos assuntos. Minha pergunta realmente havia sido uma no meio de tantas outras iguais.

Cheguei ao meu destino e pensei, comigo, sobre o que eu havia dito sem motivo algum. Era melhor ter preservado o silêncio inicial que provinha de um encontro entre dois desconhecidos, do que ter criado o silêncio da chatice após falar bobagem.

Para resolver o meu problema, neste dia, tive de aguardar alguns minutos em uma sala de espera. Lá retirei meu Kindle da mochila e comecei a ler Platão em 90 minutos. Esqueci do mundo naquele momento. O que me importava eram as frases críticas e meio cômicas do autor sobre as loucuras de certos filósofos. No canto da boca um sorriso fora indispensável, até que um rapaz ao meu lado me perguntou sobre o E-reader que eu utilizava.

– O que é esse aparelho? – Perguntou o rapaz enquanto apontava para o Kindle.

Obviamente expliquei tudo o que sabia, mostrei dicionários, e todas as funcionalidades. Expliquei sobre preços e o quanto aumentei o número de livros lidos após a compra. O rapaz ficou muito feliz em descobrir sobre um aparelho que resolveria seus problemas. E lá ele ficou, em silêncio olhando para o Kindle e o que eu lia. Minha reação foi clara ao parar de dar a atenção ao texto e começar a reparar nas expressões que o rapaz fazia. Lembrei de mim, quando queria puxar assunto e não tinha o que dizer. Então decidi ajudar o rapaz e comecei a explorar mais as funcionalidades do aparelho e a apresentar a minha biblioteca. Essa atitude me deixou mais calmo em relação à falta de assunto de antes, afinal eu preciso ser mais sociável e ser sociável requer uma aceitação na repetição de assuntos cotidianos.

Na volta para casa, peguei mais um Uber de pirraça. Entrei no carro e comecei logo a conversar. Perguntei ao motorista quais eram as perguntas que os passageiros mais faziam. Ele sorriu e repetiu para mim: Os taxistas pararam com as perseguições? Tá gostando de trabalhar com a Uber? Da pra ganhar dinheiro?

Eu ri já sabendo quais eram as respostas. Isso me mostrou que o comportamento dos passageiros de Uber costuma ser igual até para quem acha que está fazendo diferente, como eu. Da próxima vez vou pensar em um assunto mais distinto, o problema vai surgir novamente se todos começarem a observar isso também, vai que o assunto distinto escolhido também se repita para a tristeza dos motoristas.

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