O tempo perdido4 min read

2017 realmente foi um ano bastante marcante. Eu poderia ampliar e falar das mudanças do mundo, do avanço da operação lava-jato ou qualquer outra merda dessas que aconteceu na pluralidade do inédito, mas me recluso sendo egoísta e refletindo sobre minha própria vida em fevereiro. Geralmente as pessoas utilizam os dias da passagem do ano para pensar sobre seus erros e seus novos planos, no entanto eu acabo fazendo isso quase todos os dias em um constante loop sentimental acrescentando ansiedade e uma pitada de insegurança. Nesse contexto para mim não faz diferença discutir sobre a vida em um período do ano se a mesma acontece presentemente.

Pois bem, seguindo com o tema egoísta eu começo contando uma história curta que vivi na fila de uma padaria enquanto contava as cédulas de dois reais para completar o pagamento. O meu antigo professor de inglês do ensino médio me parou com uma cara suplicante e pensativa precisando de uma palavra de conforto que concordasse com sua dor momentânea, escolheu errado quando decidiu me usar para aliviar a sua dor. Mesmo eu sabendo como as pessoas reagem quando pedem por coisas sentimentais eu entreguei a ele a minha sincera opinião sobre a pergunta pessoal que ele me fez diante de pessoas desconhecidas.

— Seja sincero, você tem saudades daquele tempo? — indagou o Professor enquanto suplicava com os olhos para que eu confirmasse as saudades. O tempo referido é o tempo da escola, do ensino médio o tempo em que ele me conheceu.

— Na verdade não. — respondi com sinceridade, apesar de saber que ele não queria ouvir isso.

— É às vezes a gente poderia estar passando por momentos difíceis, mas quando pensamos no contexto geral… — explicou o Professor esperando que eu entendesse o complemento da frase.

— Eu entendo, mas não gostaria de voltar, por exemplo.

O professor deu de ombros com um sorriso falso e me deixou a pensar na forma rude como tratei uma pessoa que só buscava um pouco de conforto em uma conversa sobre memórias; sobre o tempo passado. Notei que eu realmente não gostaria de voltar para uma época em que minha voz não tinha atividade, em que minha vida era como a da maioria em minha volta me orgulhando de nunca sentir orgulho de nenhum ato corajoso de crescimento, aguardado o tempo passar mais rápido para o próximo dia fútil aparecer e engolir minha utilidade. Eu realmente não gostaria de voltar para uma época em que minha mente vivia em um conflito gigante entre a manipulação da alienação parental e os sentimentos vividos no ato da troca de experiências. Não gostaria de viver em uma época que minha coragem não existiria e o tempo seria perdido mais uma vez.

Esse ano de 2017 notei mais do que nunca que não posso frequentar limbos de inutilidade, que não posso sentar a bunda numa cadeira e não mover um músculo para mudar o que incomoda e notei que o tempo é mais curto do que parece ser. Tive vontade de agradecer a um professor que desenvolveu em mim um interesse incrível na educação, mas enquanto eu vivia minhas conquistas meu egocentrismo não queria me levar até ele e minha insegurança imaginava o quanto minha voz seria insignificante, mas ele se foi antes que eu pudesse revê-lo para avaliar com outros olhos o que antes me alegrou. Da mesma forma gostaria de ter visto o show de uma das bandas prediletas. Queria ter curtido a emoção de participar do coro da plateia enquanto cantarolava um refrão inspirador. Queria ter visto uma das pessoas responsáveis pela trilha sonora do meu protagonismo, mas ele também se foi deixando uma dúvida terrível na minha mente e me fazendo viver cada momento com o sofrimento de ter perdido muito tempo sem agir por vontade.

Alguns fracassos me abalaram, não pelos erros que cometi, mas por confiar em tanta gente e ser pisoteado rapidamente sob uma manada de touros. Escolhi seguir em frente, mas parece que as coisas ainda são bastante difíceis e não mudarão tão cedo. Gostaria de olhar o jornal do estado e não encontrar um catálogo de possibilidades de destruição, gostaria de poder me sentir seguro em qualquer lugar, mas parece que minha vida anterior à autonomia se reflete como um karma me sugando de volta ao medo.

Voltar? Saudades? Prefiro não recordar o tempo perdido com nada construtivo.

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