O Inédito4 min read

Ele simplesmente saiu de casa como se nada tivesse acontecido, afinal seu trabalho o ensinara a ser frio em momentos difíceis, uma postura que teve de carregar para toda a vida caso quisesse melhorar em sua carreira. E não queria ouvir uma esposa cujo pensamento místico ganhava de qualquer tentativa racional de esclarecer suas dúvidas. Mas foi ontem que tudo aconteceu…

Ela estava caminhando numa rua deserta quando uma de suas amigas tentou entrar em contato, ela não atendeu, porque queria um pouco de paz. Certamente alguém tentaria fazê-la mudar de ideia quanto às suas convicções, mas isso não aconteceria naquele dia, simplesmente porque ela estava decidida, porém, depois de tantas ligações rejeitadas, aguardou por uma última para resolver a parada. Sua irmã devia estar insistindo para começar uma nova discussão complexa sobre valores devidos aqui e ali. Sentou-se em um banco giratório diante do balcão da lanchonete da esquina, pediu uma fatia de torta de frango e aguardou alguns segundos. E foi assim, com um garfo na boca que recebeu a notícia…

– Você não entende? Eu só quero lhe proteger… Aquilo foi horrível.

– Fernanda! Você ouviu o que disse? Está querendo que eu falte ao trabalho, porque sonhou com minha morte enquanto falava merda com sua irmã no telefone?

– Não é assim que as coisas funcionam. Você agora vai ignorar aquele dia que eu sonhei com a doença da sua mãe? Na época você me chamou de médium e disse que meu dom poderia ser utilizado em algum momento. Agora que já está casado não precisa mais mentir?

– Não me entenda mal. Eu não posso chegar para o meu chefe e dizer que faltei porque a minha esposa às vezes sonha com coisas que acredita acontecer.

– “Acredita que acontece”? Realmente acho que me casei com um mentiroso.

– Não é isso, me entenda. Me devolva as chaves do carro.

– Não vou devolver.

– Eu preciso ir trabalhar.

— E eu preciso que você para de fazer isso comigo, já não basta ter que conviver com essas premonições?

— Você não é especial, para com isso e me dê essa droga!

Ela insistiu na birra e escondeu as chaves com as mãos nas costas. Olhou para o marido com um olhar de superioridade que o fez perder a noção da razão. Ele andou com passos pesados até pegar o casaco que estava jogado em um dos braços do sofá da sala. Recolheu toda a loucura que havia em seu ser e decidiu ir para o trabalho de onibus certamente atrasado. Sua esposa permanecia firme na ideia e simplemente começou a gritar fingindo lágrimas de desespero. Aos poucos o som falso fora ficando para traz e Junior já não se importava mais, e continuou andando. Após alguns minutos de caminhada, tentou retirar o assunto da mente imaginando coisas diferentes para resolver, como o novo dormitório que começaria a habitar nos passeios da igreja.

Mas sempre que sentia o cansaço da caminhada, lembrava da intrometida que custaria quase o seu emprego se o seu chefe não estivesse viajando à negócios. Se conseguisse calcular as vezes que pensou em desistir deste casamento, teria que mudar de ramo e tentar algo mais matemático, porém tinha um certo sentimento ainda vivo para com sua esposa, que agora só se parecia com um demônio em sua mente, repetindo palavras tristes e promonições malévolas.

Chegou no ponto de ônibus, seus batimentos cardíacos estavam acelerados após atrevassar a rua e quase ser atropelado por uma moto. Respirou fundo e tentou tirar a ideia de premonição da cabeça, mas já era tarde demais, a paranoia já o havia atingido com força e nada mudaria a situação. No ponto de ônibus ninguém conhecido, nem ao menos familiar. Na verdade ele que era o estranho sem carro do dia. Levantou a mão direita fazendo sinal para o motorista parar a imenso veículo, e entrou calmamente. Respirando profundamente, sentiu um pouco de turbulência enquanto seguia para um assento qualquer, mas tudo estava bem… não se sabe ao certo quais foram suas ultimas memórias, eu chutaria que sua paranóia havia cessado… Junior teve o crânio destruído assim que encostou no assento, após uma colisão intensa do ônibus com uma carreta desgovernada à mais de cem por hora.

Algumas horas depois, os documentos de Junior levaram os policiais à passarem a notícia para Fernanda… O sorriso no canto da boca de Fernanda sobrepôs as dores da notícia, pois neste momento ela confirmou que realmente era especial.

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