O dia em que me converti a uma religião4 min read

Conheço algumas pessoas que possuem problemas intestinais. Uma delas desenvolve a caganeira colossal em poucos minutos e fica assim por dias. Ainda tentando descobrir o que fez de errado, quais comidas a fizeram desistir de viver uma vida social. Mas ela nunca descobre, geralmente suspeita do temido leite, e em outros momentos, come o maldito para testar a sua teoria. O curioso é ver que, nessa lógica teórica, o leite é sim o problema, mas sempre que surge uma oportunidade de comê-lo em algo novo, esta não poderá ser desperdiçada.

Já uma outra pessoa, a mais conhecida no grupo de amigos, tem um problema sério e verdadeiro, até comenta sobre isso na internet. O problema é ver ele ter de se acostumar a enfrentar os banheiros (para não dizer perigos) da vida. Em lojas de roupa, prestadoras de serviços, lanchonetes, no trabalho, no ônibus, na rua. Em todos os lugares que passa ele precisa conhecer o amigo banheiro. Penso que ele saiba o que é um banheiro de forma técnica. Poderia até escrever teses sem parar sobre os problemas existentes nesses estabelecimentos fedidos. Ganharia, talvez, um espaço no Comedy Central, como o homem dos mil banheiros, um stand up completo de verdades experimentadas e nada de gracinhas falsas sobre si mesmo.

O amigo (a segunda pessoa mencionada) já passou por vários momentos de tensão. Aqueles momentos em que o seu ânus começa a falar, e fala com uma voz doce e molhada, quase que pedindo socorro aos berros para que o mano amigo consiga um refúgio de qualquer atividade sem sentido. E é aí que a caminhada para a morte começa. O rapaz fica suado, não sabe para onde andar, quanto mais ele caminha, mas o chiclete mascado aumenta a pressão. Mesmo passando por isso várias vezes, ele ainda acha que conseguirá segurar e que, talvez, aquele grito silencioso tenha sido apenas alarme falso. Mas ele tenta. Muda de conversa. Não olha mais nos seus olhos, se concentra no músculo rugoso, fica em silêncio. O mundo agora parece ficar abafado e oco, produz uma sensação que entope seus ouvidos como se o som ao redor fosse se desfocando lentamente.

As transpirações parecem ser os sinais. Eu, quando estou ao lado dele, penso em perguntar o que está havendo. Mas ao notar a expressão fugitiva não consigo prosseguir com um interrogatório. Tento calar a minha boca, e logo o amigo pede que entremos em uma loja qualquer sem o menor interesse ao produto. Na caminhada pesada e cambaleante ele demonstra desespero. Pergunta, discretamente, à atendente onde é o banheiro? Na pergunta sincera, a atendente aponta com o dedo e passa as instruções, algo desnecessário para ele que nem escuta mais nada. Agora o caminho segue por puro instinto. Em poucos minutos o amigo desaparece. As conclusões já foram entendidas, ao voltar o mano surge com uma expressão de renovação. Ali, naquele ambiente hostil para seu corpo, a sua alma havia sido renovada, lavada como a mais pura encarnação ritualística da terra.

Por muito tempo eu ri. Por muito tempo eu me senti soberano ao cagar ao meu comando e em horas regulares. Um orgulho impensado e medíocre. Ontem, tive de entender o verdadeiro sentido da vida, e este sentido pode se chocar ao que muitos filósofos procuram debater. O sentido da vida, é cagar. Nada te leva a quase morte quanto uma vontade exorbitante sem controle, e em uma distância colossal do banheiro mais próximo.

Eu pensei que jamais passaria pelo processo de descarrego que o amigo, com intolerâncias alimentares, passa. Mas ontem, a merda foi a soberana. Foram os quinze minutos mais aterrorizantes da minha vida. O planejamento pendia para o papel higiênico, como eu iria fazer? E se não tivesse? E a sensação fora a mesma descrita na observação da cagança do amigo. Sem palavras eu senti o que é uma conversão religiosa.

Entrei no tal banheiro pegando as toalhas de papel, as precauções foram reais. Me aliviei como um prisioneiro respirando ar puro em uma colina ao pôr do sol após 200 anos de prisão. Se eu suspirasse de felicidade mais um pouco, começaria a gargalhar. O desespero acabou, mas agora surgia um outro problema.

Uma amiga da faculdade me esperava na biblioteca. Mas aquele ser humano teve a chance de aguardar nas acomodações resfriadas de um ar condicionado. Ela preferiu ficar na porta do banheiro para olhar para a minha cara de alívio se transformar em constrangimento.

– Você está bem? – Perguntou a pessoa.

– Estou sim. Tirando o fato de ter enfrentado a morte pela bunda. Estou bem. – Respondi fugindo de explicações futuras.

E agora vem a parte em que eu tento me fazer de engraçado e social, e pergunto se você, o felizardo que está lendo esta obra intelectual de alto nível disfarçada de terror, já passou pela mesma situação. Se sim, junte-se a mim na criação da nossa salvação, pois o Deus CU(Centauro e unitário) precisa de nossa adoração.

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