Educação – Vamos reforçar o preconceito?6 min read

Ainda não cheguei a mencionar aqui no blog, mas além de escritor sou professor e outras coisas mais. Ultimamente venho me aventurando em aulas particulares que alguns chamam de “Reforços escolares”. Descobri vários tipos de problemas relacionados a esse trabalho, um deles é o conflito incrivelmente inevitável entre as metodologias antiquadas das escolas e suas avaliações exploradoras que focam apenas em sustentar números e imagens para a boa vida das crianças na escola. Quero dizer que o aprendizado atual não é sobre a importância do conteúdo ou sobre a experiência da curiosidade do indivíduo, é mais sobre uma briga de imagem, onde os alunos vivem repetindo situações constrangedoras e reprobatórias para sustentar uma competição.

Além disso, que quero falar com mais detalhes em outro momento, existe um problema que penso ser o mais difícil de combater nesse trabalho, o preconceito. Ensino algumas crianças que estudam no mesmo colégio religioso sabadista (você já deve imaginar de qual estou falando), e lá a religião é pregada como uma verdade absoluta e incrivelmente única. O entendimento sobre a vida, as pessoas e aceitação pessoal possuem uma única forma de interpretação e o que for contrário é ruim e previamente degradado.

Logo no início da parte em que o folheto sobre o projeto pedagógico dessa escola explica sobre sua filosofia de ensino, encontramos a seguinte pérola: “Deus o Criador, é a realidade última do universo.”. Alguns de seus livros são completamente tendenciosos com charges que desmerecem cientistas e engrandecem ferozmente a suprema inteligência dos cristãos. O problema disso tudo não é só a questão tendenciosa, afinal todos podem escolher o que seguir e no que acreditar, mas quando estamos falando de crianças, a educação se torna algo que não pode ser levado para lados parciais. A partir do momento em que nós estamos mexendo com a mente de uma criança, a sua vida está em jogo e a cada experiência passada a sua personalidade vai sendo marcada, juntamente com a sua vontade própria e direito de ser um cidadão livre.

Não podemos apresentar ideias filosóficas e verdadeiras apenas para uma parcela da população, com um tom que desmerece e zomba das ideias contrárias. Porque isso molda o entendimento da criança que toma aquele conteúdo como absoluto e o contrário dele será eternamente zombado como com ideias sem fundamento, sem experimentações, sem testes, sem conhecer.

Os pais dessas crianças cometem erros incríveis em sua educação, principalmente na hora de comentar sobre assuntos pelos quais eles não possuem conhecimento. Vi uma mãe degradar e unificar todo o mal existente no mundo como magia negra e que era algo interpretado como macumba. Uma professora de geografia ensinou a criança em um aspecto de zombaria que a astrologia também era macumba. Explicou sobre várias coisas preconceituosas, mas esqueceu de informar o que, realmente, é a tal macumba.

As mesmas crianças destilam ódios e palavras terríveis com desejos de morte e tortura para políticos, mas esses moleques têm 8, 11, e 13 anos de idade. Não sabem votar, não estudam nada à fundo relacionados ao tema e mal sabem entender a linguagem de um trecho de uma lei. O que me deixa mais irritado é ver crianças sendo criadas sob as asas dos pais, repetindo palavras de ódio e revolta sem causa, sem fundamentos…

Um belo dia me encontrei diante de uma criança de oito anos me xingando de demônio, monstro, encosto e várias outras palavras não tão bonitas para ele. Se você acha que eu fiz algo de errado, pense direito, eu apenas ouvi um aluno mais velho explicar para o irmão mais novo que, eu o professor que ele tanto gostava, sou ateu. A criança se afastou, encontrou o verdadeiro diabo, correu, jogou cadernos e o que tinha em mãos, tudo para repetir no final algumas palavras mais duras e ainda com uma assinatura em baixo:

– Você vai para o inferno, pagar por não acreditar em Deus, e vai morrer cedo porque Deus não vai te proteger. – e ainda completou – minha mãe me disse que é isso que acontece com quem não acredita em Deus.

Eu respirei fundo. Mudei minha postura sobre a família, e comecei a explicar as diferenças entre crenças, pessoas, animais e tudo o que tinha para falar de divergente. A criança se acalmou, entendeu e mudou o comportamento rapidamente. Depois desse dia ele nunca mais expressou preconceitos contra Ateus. Mas durante as aulas é comum ouvir outros tipos de expressões que os pais e professores ensinam. Como o que houve hoje, por exemplo.

Um dos alunos começou a desenhar coisas diferentes em uma parede. O outro aluno relacionou os desenhos a comportamentos homossexuais dizendo que só gay desenha aquele tipo de coisa. Quando ouvi isso comecei os meus questionamentos e ensinamentos, após me ouvirem calados eles disseram em coro:

– Eu odeio gay.

O mais velho ainda teve de completar:

– Os gays são errados, e fazem tudo errado. Todos vão ter que pagar, e ainda criaram uma bíblia gay.

Cara. Não pude ouvir aquilo como se nada tivesse acontecido. Os pais daquelas crianças estão criando pessoas preconceituosas e terríveis, apenas por seguirem uma ideologia diferente. A escola replica isso constantemente. Em outro exemplo um aluno explicou que não tinha nada contra negros, mas que ele era muito mais bonito do que qualquer aluno negro da escola, porque o cabelo dele era de boa qualidade. PQP!

Outro moleque explicou que estava apaixonado por uma menina, mas sua mãe avaliou e disse que ela não servia pra ele porque ela fazia hangloose e não era muito religiosa. Prontamente o pivete começou a gostar de uma que é mais quietinha e segue a jesus “doentemente”. Outros momentos as roupas de alguém estão um lixo, em outros os livros custaram caro demais e eles possuem dinheiro para pagar. “Eu acho que aquela menina gosta de mim, porque eu tenho uma jaqueta cara”.

Onde vamos parar com esse tipo de comportamento? Uma professora escreveu no caderno da criança que a terra tem 6000 anos de idade. O que devemos fazer com essa criatura? Capacitar? Chamar os Homens de preto para fazer ela esquecer que é professora de ciências? Ou simplesmente encontrar um modo de fiscalizar o conteúdo mais evidente?

Apesar de todo o meu sentimento de revolta, continuo a fazer a minha parte, tentando mudar o pensamento dessas crianças, pelo menos abrir a mente para outras alternativas, deixar que elas escolham o verdadeiro caminho para lutar por uma vida justa e que de fato seja proveitosa. Mas brigar contra os pais, os professores, e a religião está se tornando cada vez mais difícil.

Precisamos espalhar mais conhecimento. Conhecimento verdadeiro e não o superficial para atingir altos números na conta bancária. Espero que isso ajude a pensar, e não me venha dizer que eu faço parte da esquerda ou da direita, quero que essa polarização desapareça de vez e que só os costumes úteis que prevaleçam.

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