Dia após dia ela se repete2 min read

Dia após dia ela se repete.

No calor do momento, na sensação do agir. Na tentativa de suspirar, transpirar o cansaço e o suor do medo. No pensamento melancólico do andar, do sucesso alheio. No pensamento do retardo, do sono, do fracasso. No tempo que passa, no frio da angústia de não conseguir. No gracejo do olhar, na imensidão do horizonte. Aqui, ali, em tudo isso que de tão normal parece-me perder a graça. Mas teria graça nessa rotina traiçoeira?

Ela se repete como se não houvessem consequências. Como se o fato de viver fosse tão simples que a morte seduz a adrenalina. Como se o medo da exposição não fosse o problema. Como se o tédio fosse o caminho para o descanso fracassado do tempo. Como se o agir necessitasse de mais violência, fantasia, sarcasmo.

Não consigo entender. Por que ela se repete? Por que não deixar que o pensamento nos entregue à outra? Por que não é suficiente enxergar o mundo como ele realmente é? Por que tenho de ser importante, aumentar o “necessitar de mim”? Por que simplesmente não dizer não? Essa cabeça que gira torta descontrolada, não me diz que preciso dela, pois na verdade não quero precisar.

Se ela pudesse ser melhor, menos ruidosa, desastrada, detratora, devastadora. Se ela pudesse ser tranquila, feliz, calma, mínima. Se ela pudesse ser só ela e nada mais, talvez a experiência carnal, de vida, vivência, fosse melhor, mais serena, bonita.

A pena que pago, não que sinto, é a cruel convivência. Partilhar da visão imunda, da leitura profunda, dos rostos ferozes, que juntos a ela se expressam sem vê-la cair do seu corpo. Os que nela se unem, reclamam a ela uma certa proeza de esquivar-se dos problemas atrozes que não aguentam enfrentar.

Dia após dia ela se repete.

Se encosta nos ombros, ressoa nas sombras, caminha furtiva. Mas todos já sabem que ela faz mal, não pensem que nela a culpa se espelha, pois, é ela a usada. Aqui, por aqui, em todos os lugares. Não sei se sou eu que tento enxergar, mas tenho a impressão de que as pessoas boas deste lugar morreram em sua própria maleficência, vivendo a essência. E ela, a mentira, se faz mais sagaz enquanto a Outra tenta surgir para purificar inutilmente.

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