Devoradores de Mortos4 min read

Numa tarde que mais parecia manhã, ele estava sentado em um banco da praça. Seus olhos liam sem parar algumas frases lineares que ali estavam escritas. O livro se chamava Devoradores de mortos. Pouco mais de 100 páginas, pequenino que cabia no bolso sem mais problemas, na sua capa um rosto monstruoso se formava por entre uma passagem marítima sobre o caminho de um navio Viking.

Antes, em um suspiro lindo de vontade, adquirir aquelas páginas fora algo incrivelmente satisfatório. O garoto sentiu-se realizado em gastar aqueles míseros reais que, no momento, valia muito para ele. Ele teve de contar as cédulas de dois reais e ver se batia com a quantia que o livro valia, 5 reais. Ele tinha 12, aproveitou para pegar também a versão de bolso de alguns contos de Lovecraft, a tumba. Saiu de lá cheirando as páginas, não queria retirar o plástico protetor para não destruir a beleza da simetria das páginas juntas prensadas, mas ao mesmo tempo a vontade de ler aquilo o consumia ainda mais.

Voltou para casa, na verdade, tentou voltar. O que se fez impossível por ter gastado demais, o transporte público custava um terço do valor do livro e sua vontade falou mais alto. Disse que ele tentou voltar para casa, porque no meio do caminho se deparou com a praça. O silêncio que fazia aquele lugar era maravilhoso, as árvores balançavam junto ao vento que o refrescava e ainda preparavam uma sombra fria sobre o banco do qual falei na primeira frase. Ele ali sorriu, sorriu mais que riu, parecia que sua boca não tinha mais ponto de partida havia se fixado em um sorriso maluco.

Ele rasgou o plástico de um dos livros de bolso. Escolheu o devoradores de mortos por ter sido o primeiro a lhe encantar. Nas páginas iniciais ele ouviu um relato claro do que se tratava o texto, e se fez ainda mais feliz, pois havia lido a sinopse e não haveria sinopse feita com mentira. Conheceu algumas tribos antigas em relatos românticos, entendeu sobre a vida dos turcos oguzes e depois antes que pudesse pensar em voltar para a casa, já haviam se passado alguns minutos e quase completara uma hora, mas a sua leitura estava ainda mais proveitosa, as páginas se mexiam sozinhas quanto a vontade que se fazia única. Ele queria terminar aquele livro, havia chegado nos Vikings, a sua esperança de ler sobre o que a espada de Bulywiff era capaz de fazer, não estava pronta para aguardar o outro dia.

Mesmo relutante teve de voltar para casa, aquela história era ainda mais interessante do que aparentava. Para ele os valores impostos ali eram gigantescos, ele estava com o primeiro livro que comprara com seus próprios esforços aos 14anos de idade, e além do mais estava agora a refletir sobre o que entendera daquele texto. Ouviu uma das frases que mudou sua forma de pensar Escrever é desenhar sons. Essa expressão era óbvia, mas não para ele que viera de um lugar em que a leitura era coisa para gente intelectual usar de maquiagem. Aquele dia foi realmente importante.

Chegando em casa olhou para a sua mãe, feliz por ter algo em mãos que o fez sorrir por um longo caminho, mesmo sob o sol ardente, mesmo em uma caminhada solitária. Ele retirou os livros do bolso e segurou os dois em apenas uma mão. Ainda sorrindo se aproximou de sua mãe chamando a atenção e pediu que ela olhasse para os livros. Ela olhou… Pegou o que estava solto e leu o título devoradores de mortos os olhos de reprovação foram como uma facada, parecia que ele estava fazendo algo de tenebroso, algo completamente indecente, ilegal. O olhar reduziu a felicidade do garoto a quase zero em uma escala numérica, ela reprovou a felicidade, reprovou a leitura, a empolgação, reprovou o fato de que seu filho – em uma cidade onde a maioria dos jovens preferem bebidas alcoólicas e drogas – estivesse preocupado em adquirir o seu primeiro livro. Ela então perguntou “qual o motivo de você só olhar para essas coisas?” Ele respondeu sem entender a situação “um livro?”. Ela entregou os livros e voltou para as suas inúteis tarefas.

Mais tarde ele enfrentou a sua avó que já havia recebido um veneno perigoso, uma fala da mãe que dizia que os livros comprados tinham partes do Satã. Enfrentou o seu pai que também já entendera que seu filho praticava coisas ocultas. No final de tudo o garoto já sabia o que estava de errado, não eram seus livros, não eram suas vontades, não eram seus textos, nem seus 14 anos. O problema que se sustentava era a pura ignorância.

A mesma que fará algumas pessoas rejeitarem a leitura deste texto por apenas julgar este título como algo tenebroso e impróprio. Isso não se chama Tolerância.

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