Coragem e Zona de Conforto7 min read

Fernando seguia em direção ao ponto de ônibus às 6h30 da manhã. O dia estava bonito, e ele se acalmava com a fria brisa que o atingia pelo caminho. Seus olhos vermelhos expressavam o cansaço que não tinha sido abandonado com o energizar do sono. Nem o café quente e forte que tomou com torradas de alho, resolveu o seu problema. Ele tinha de ir.

A rua parecia inspiradora de poemas. O silencio também compartilhava desta virtude, mas Fernando não se sentia bem. No ponto de ônibus o senso comum o atingiu, porém neste dia ele não parecia muito sociável.

– Como esse ônibus demora. – Disse um rapaz que acabara de chegar no ponto.

– É. – Respondeu Fernando com nenhum entusiasmo.

O rapaz ainda tentou algumas conversas interessantes. O ótimo jogo de ontem, o esquisito fenômeno que o Jornal Nacional noticiou, e a sua teoria sobre o quanto os ônibus se atrasam só porque ele chegou no ponto. Fernando não respondia muito além de assentir com a cabeça. O balançar era frio para o seu novo amigo sociável. A única coisa que passava pela cabeça de Fernando era a tristeza de uma segunda-feira de trabalho.

No trabalho ele tinha de repetir as mesmas atividades todos os dias. Aquilo não era de seu interesse, mas Fernando, estava postergando a mudança desde o dia em que se decidiu. E essa decisão não veio acompanhada de uma ação e, portanto, ela já tinha mais de 15 anos de idade.

Por que Fernando não mudava? Ele precisava, realmente, mudar?

Chamamos de Zona de Conforto uma série de ações, pensamentos e comportamentos que uma pessoa está acostumada a ter e que não a causam nenhum tipo de medo, ansiedade ou risco. É uma região onde nenhum indivíduo se sente ameaçado. Essa definição nos mostra que a Zona de Conforto não é tão ruim quanto parece. Se você sempre lutou por uma certa estabilidade durante a sua vida inteira significa que, talvez, você tenha vivido fora da Zona de Conforto, a partir do momento em que sua meta fora estabelecida e necessitava de crescimento, de avanço. Quando você atinge sua meta a Zona de Conforto pode ser claramente apreciada, como um resquício de descanso. O pouco de descanso que a Zona de conforto entrega. A segurança, a não ansiedade e a falta de riscos.

O nosso problema aqui é sobre a sua falsa segurança para aqueles que de fato ainda não a tem. Como por exemplo no caso de Fernando. A sua meta não era receber um salário mínimo e meio, ele queria mais. Ele queria comprar a sua casa própria à vista, ele queria sorrir ao receber as contas para pagar. Ele queria o poder de entrar em uma verdadeira Zona de Conforto. Mas Fernando, aos seus 35 anos, vive em função de um trabalho, um trabalho secundário que o fornece o valor suficiente para a sua sobrevivência.

Ele trabalhava como um funcionário, sem liberdade para buscar a sua vida esperada e não queria ter o tempo para buscar essa vida esperada. Fernando se enchia de medo ao ter a visão de não conseguir pagar o aluguel do mês seguinte. Fernando queria comprar um Nintendo 3ds Xl para o seu filho, porém o console custa, mais ou menos, 20% a mais do que o seu salário atual. Ele não tem crédito para comprar a prestação e uma dívida como essa, mesmo à prestação iria fazê-lo sofrer demais, para obter a felicidade do seu filho.

Muitos por aí repetem que você precisa sair da zona de conforto, porém uma falsa zona de conforto não é zona de conforto. A medida em que a tristeza de Fernando aumentava o seu desconforto ia junto. Como sair, então, dessa Zona do Desconforto.

Pense na história de Fernando como se fosse a sua. Qual a sua necessidade atual? Você está em uma Zona de Desconforto? Ou em uma Zona de Conforto? Para saber disso não precisa pensar muito, apenas olhe para os momentos do dia em que você se queixa o suficiente para perder a alegria. Se você for um alguém infeliz com sua situação atual, não há porque não mudar.

O medo causado pela Zona do desconforto, pode ser apenas a sua ignorância falando por si. O que você precisa saber é até onde será capaz de ir. Aprender coisas novas, viver mais o momento atual, entender que o tempo é mais curto do que parece agora. No caso de Fernando o seu filho poderia sofrer caso ele abandonasse o seu desconforto. Em vários momentos que pensou nisso, ele simplesmente acomodou-se em sua poltrona e esperou que uma luz surgisse no fim do túnel. O problema era que na sua casa não havia túnel para ser iluminado.

Vamos rir depois. Depois que Fernando conseguir sair desse problema. E por isso vamos ajuda-lo a imaginar o que de tão ruim poderá acontecer.

  1. Fernando irá perder o emprego.
  2. Fernando terá de procurar um novo emprego.
  3. Fernando terá de estudar mais.
  4. O filho de Fernando não terá o Nintendo 3ds xl.
  5. Fernando não terá o aluguel dos próximos meses.

Para sair da Zona de conforto (ou desconforto como eu chamo neste livro) é preciso um planejamento. Claro que o inédito da vida não permitirá que esse planejamento siga como o esperado, mas ele saberá qual a sua situação atual, até quando conseguirá se manter com o que receberá da demissão e, portanto, saberá o tempo que terá disponível para melhorar de profissão. Sem contar que nada o impede de começar um novo caminho ainda em seu emprego, deste modo se o caminho for mais longo os primeiros passos poderão ser dados ainda com a segurança da sobrevivência.

Muitos dizem que mudar é difícil, eu diria que mudar é fácil, o difícil é depois que a mudança acontece. Quando saímos de um pensamento padrão o que encontramos é a pura incerteza. A incerteza é a verdadeira vilã dessa situação. Ela é a causadora do medo da mudança. Por isso é completamente importante para você, conhecer suas capacidades. Saiba, de fato quem é você, e repita consigo mesmo o que precisa fazer para alcançar o que deseja ser.

Depois vem a parte difícil que é sustentar a mudança. Os antigos comportamentos irão sempre continuar a lhe rondar, e ao Fernando também. Se ele pular para um novo emprego com o valor um pouco maior e lá permanecer por mais 15 anos, nada ele fez. Saiu de um desconforto para entrar em outro. Pois isso não garante o seu desenvolvimento, o seu avanço. A falsa segurança limita o seu crescimento profissional, então, apesar de parecer que ele evoluiu um pouco, na verdade não saiu do lugar a longo prazo.

Todo o começo é difícil, já dizia minha avó, se era pura repetição de expressão, eu não sei, mas tive de confirmar da pior forma. Por isso aqui vai um sermão de palestra motivacional: – Se você tentar uma vez e não conseguir, tente mais uma, e mais uma, e mais uma até conseguir. Não é bem assim, pois se você não conseguiu da primeira, algo de errado você fez. Então não repita a ação, busque uma melhoria, sempre.

Os erros precisam ser completamente reconhecidos, e superados. Superados com conhecimento, a observação do próprio erro mais um pouco de honestidade, vai te fazer mudar a forma de agir da próxima vez. Assim você reconhece que teve experiência naquela situação. Portanto a segunda tentativa não será igual a primeira, de forma alguma, e nem a terceira, e nem a quarta, e muito menos a que funcione.

Trecho do livro “A arte de viver e o pensamento autônomo”  de Carlos Hallan.

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