Buquê de flores4 min read

Caminhei sem ser notado. Passos lentos, sem rumo, apenas seguia para tentar não interromper o fluxo natural da vida. Multidões iam em destinos iguais, uns para lá outros vinham, mas ninguém interrompia esse fluxo. Sempre em frente, sem explicações plausiveis para um passo de cada vez. As escadas que possuíam um temporizador ocasional para facilitar o fluxo contra a gravidade, não podiam exercer a sua função automática, pois filas se formavam e as multidões aceleravam os passos e ignoravam o sentido padrão das escadas.

No meio de tudo estava eu, rodopiando pelos fluxos, sendo jogado de um lado para outro. Nem indo, nem vindo. Apenas tentando me encaixar em qualquer uma das correntesas, pois pareciam tão naturais que eram como sugestões hipnóticas me fazendo desistir de encontrar meu próprio caminho. Pensei mais fortemente, querendo entender tudo o que via, e o motivo de estar alí. Lembrei-me em um lapso de tempo que estava indo para casa, e precisava continuar para pegar o trem. Mas para que lado? Onde estaria meu destino?

Pensei se devia perguntar, mas estranhamente todos viviam fissurados em caminhadas rápidas e longas seguindo contra o tempo cuidando de suas próprias linhas, além disso os aparelhos eletronicos em suas mãos tomavam todas as posibilidades de contato. Eu realmente era invisível e não adiantava agir contra o fluxo, ninguém reparava. Os guardas pareciam fixados em fazer o seu trabalho, mas entre o momento certo de conversar e o momento certo em ter de aturar seu trabalho autoritario.

Decidi parar um pouco, observar mais o assunto em questão. Eu deveria parar de semicerrar os olhos quando olhando para o fluxo, deveria entender cada um como um ser único com suas emoções estranhamente conectadas com aquela caminhada. Pois então confirmei o que queria. O olhar daqueles não se mostrava tão individual assim, apesar de sentir que suas expressões faciais pediam um atropelamento constante de qualquer um que estivesse a frente. Isso definitivamente era o que motivava todos a procurarem um fim para aquilo e acelerar o processo, eu por outro lado, já estava farto da boa aparência como um momento em que se enjoa do enjoados de comidas boas. Todos tinham boa aparência na medida do possível de seus esforços.

Se por um acaso eu me olhasse como olhei para a multidão, certamente desenvolveria uma inveja não tão comum quanto o medo no olhar de cada um. O medo de si mesmo como humanidade. A caminhada que parecia pura rotina não dava tempo para humanidade, os que seguiam seguiam, os que não conseguiam eram empurrados de qualquer forma, afinal seu erro dentro do fluxo fora de não acompanhar a boa aparência constante. Mas ao mesmo tempo existe o que se divulga como cultura. Cultivo culto de um saber de estranho, um tanto diferente do que é real. Pois se ninguém se preocupa com a aparência a moda que se observa na rua no auge do inverno não me parece apenas uma vaidade individual, ou nenhuma vaidade como o cultivo informa.

Mas já ouvi de alguém que o recalque começa quando você não recebe flores. Com esse propósito de informação, os que não recebem o mesmo potencial acabam reclamando para si um direito de ser simples e não necessitar da superioridade da vaidade que por sua vez, não existe, segundo a cultura cultivada. Pergunto-me se ainda terei de entender que desejos o alguém teria em obter o contrário do que se tem. Mas se eu pensar de forma ampla, isso não é pergunta que se faça, afinal nada que temos supera o que ainda não temos. A conquista de tudo se resume ao fato de obter, sem isso não teríamos o simples, não teríamos o direito e muito menos a vaidade que não existe.

Na minha observação constatei que o caminho deve ser o mesmo. Seguir o fluxo não é má ideia, no entanto, apenas para a obtenção daquele limite que optei. E deixando que a ideia de quebrar o fluxo ainda permaneça firme e fidedigna ao pensamente de existir como individual. Após deliberar, segui rumo a correntesa dos zumbis de boa aparência e não sobrou nada além de me ver no meio daquele buquê de flores, contrastando vida entre as flores mortas.

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