Brisas2 min read

A escuridão ainda vivia às quatro da manhã do dia dezoito de dezembro. Meus ouvidos estavam aguçados a escutar o barulho do motor de um ventilador velho que girava em velocidade lenta para empurrar uma leve brisa que resfriava meu corpo suado de uma noite de sono conturbada. Movimentei meus braços para cima e olhei atentamente as minhas mãos que pareciam ainda lembrar do toque gracioso que acabara de sentir antes de acordar.

Acordar às 4h da manhã é algo difícil para quem não tem compromissos, porém eu havia marcado algo especial, deveria encontrá-la em uma rua deserta para uma caminhada ao amanhecer em um parque próximo de nossas casas. Tomei aquele verdadeiro banho e me vesti olhando várias vezes para o espelho, porque mesmo que eu quisesse demonstrar firmeza a incerteza me batia a cada cinco segundos.

Ao sair de casa o frio da rua silenciosa me espantava, no verão os dias costumavam ser bem quentes, mas a madrugada tinha seus caprichos, e meu corpo entendia claramente a mensagem. Caminhei ofegante por entre as ruas esquivando dos buracos por puro instinto, pois minha mente se encontrava distante, no futuro, imaginando as palavras que eu deveria dizer ao chegar, ou as palavras que eu deveria dizer ao sair.

Naquele dia, eu não estava pensando direito. Talvez houvesse medo, talvez não fosse uma boa hora, o fato é que eu estava nervoso, como se eu tivesse que dizer sim em frente a um padre com milhões de convidados a escuta. Na verdade, o que eu tinha que fazer era apenas conversar, ela nem sabia de meus sentimentos, mas talvez desconfiasse. Não é possível que ela me torne parte de tudo e ao mesmo tempo parte de nada. Será que sou único? Será que tem mais alguém?

Jamais iria perguntar algo do tipo, e ainda por cima às 4h da manhã em uma caminhada. Mas eu poderia chegar perto disso.  Você pode estar se perguntando por que ele não conta logo o final? A resposta pode ser simples não houve final. Tudo estava apenas começando e meus sentimentos ainda floresciam lentamente a cada sorriso avistado, a cada conversa obtida sem esforços, a cada momento…

Em uma rua, comecei a reparar ao redor, tentei desvincular o pensamento do motivo de estar ali. Observei atentamente por onde andava, tentei identificar os motivos de alguém estar de pé naquela hora, mas ninguém compartilhava aquele momento, todos dormiam. O silencio nas ruas não me perturbava, pelo contrário, me alegrava, parecia que minhas pilhas recarregavam a cada passo que eu dava e ouvia minha própria respiração.

Por fim cheguei no meu destino, sentei-me em uma calçada e pensei comigo o que ela fazia, será que pensava em mim ou nem ao menos se lembrava?

Sua voz soou da janela e acalmou meus pensamentos…

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