Acidente radioativo de Goiânia – A ignorância mata5 min read

Eu soube que teria que fazer algo diferente quando já não aguentava mais a distribuição gratuita de ódio sobre assuntos desconhecidos. Observei no meu círculo de vivência uma gente preocupadíssima com a aparência, mas ao mesmo tempo, não preocupada com aquilo que é ilegal.

Vivemos em um mundo monitorado. As ruas estão repletas de aparelhos reprovadores e câmeras. Somos alvo constante de dúvida. Mas isso é completamente aceitável, quando falamos da tal segurança. Temos que nos proteger dos animais iguais a nós que não sabem conter as suas vontades obscuras. No Brasil – falo do Brasil porque não conheço outros países no cotidiano – a maioria da população é corrupta, e aguarda silenciosamente o momento correto para dar o bote.

Um, dois, três e já… não é preciso aguardar tanto. Não espere. O cara da esquina está te observando. Ele pode ser um ladrão. Mas, espere. Passei por ele e não fui assaltado. Ufa… mais um rapaz de bermuda… ufa… e essa mulher cheirando cola me olhou feio. A cada carro preto que passa eu me sinto amedrontado como se o moço do carro branco também não fosse me roubar. E no final do dia, o alívio de não ter perdido os seu suado presente aparece como um presente ainda maior. Viver no Brasil é uma aventura, andar pelas ruas desafia a morte.

Um caso para completar os exemplos da tal ignorância coletiva que sofremos no país. O acidente radiológico de Goiânia. Olhando para a história e a forma como tudo aconteceu, para mim, o caso inteiro sofreu por erros de ignorância por todas as partes envolvidas. E só se pode chamar de acidente por pena dos envolvidos porque na realidade o que houve foi uma sucessão de crimes.

“O acidente radiológico de Goiânia, amplamente conhecido como acidente com o Césio-137, foi um grave episódio de contaminação por radioatividade ocorrido no Brasil. A contaminação teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado em radioterapias foi encontrado dentro de uma clínica abandonada, no centro de Goiânia, em Goiás. Foi classificado como nível 5 (acidentes com consequências de longo alcance) na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, que vai de zero a sete, onde o menor valor corresponde a um desvio, sem significação para segurança, enquanto no outro extremo estão localizados os acidentes graves. ”

Wikipedia

Tudo começou quando um instituto de radiologia abandonou um equipamento de teleterapia nas ruínas de suas antigas instalações. O primeiro crime foi cometido, quando o instituto não fez a mudança correta e ainda abandonou um aparelho que não pode ser descartado assim de maneira nenhuma.

O Super-Homem honesto e trabalhador, ironicamente falando, Devair Ferreira, dono de um ferro-velho, decidiu invadir as ruínas do instituto para roubar os equipamentos que ali estavam. Ele encontrou a fonte contaminadora e levou para o seu ferro-velho. Lá chegando fez o desmonte do aparelho e se maravilhou com o miserável pó branco que brilhava no escuro.

Devair não sabia do que se tratava e não tinha consciência da merda que estava fazendo. Só sabia que estava tomando vantagem sobre alguém pois o seu roubo fora bem-sucedido. Ele agora tinha um sal mágico e uma boa quantidade de chumbo para aproveitar.

Não contente ainda com a situação proveitosa, o irmão do Devair deu de comer a sua filhinha o pó que brilhava no escuro. Ele entregou às mãos da menina ao césio e depois deixou que ela comesse um simples ovo cozido com as mãos contaminadas. E a brincadeira não parou por aí. Várias pessoas foram contaminadas pela beleza do pó brilhante.

Após sentirem sintomas ruins, a mulher de Devair colocou o seu instinto de sobrevivência para funcionar, levou o pó para a vigilância sanitária que pouco se fuderam para o que ela dizia, e escantearam o pó numa cadeira por alguns dias. A negligência dos médicos em não suspeitar de nada e ainda não escutarem dona Maria, foi o que fez ela levar o pó para a vigilância. Só depois de algumas outras consultas é que alguém deu ouvidos a ela e prosseguiu com as investigações.

A demora para descobrirem a causa resultou em uma situação mais grave. O crime que o instituto cometeu foi o princípio para a contaminação de toda aquela região. O crime cometido pelo honesto Devair contaminou diversas pessoas e matou a sua mulher e sua sobrinha. Além de atingir um número enorme de pessoas que apenas viveram no lugar errado com o vizinho errado.

A pior parte da situação é ver que os governantes da época. Acharam que deveriam colocar mais vidas em risco como os policiais que não sabiam o motivo de todo estardalhaço. Os governantes preferiram esconder da população a merda que estava acontecendo. Provavelmente com medo do pânico, mas não imaginaram que com todos aqueles procedimentos de desinfecção o pânico seria ainda pior?

O que originou o problema foi a ignorância do instituto. A ignorância de Devair, a ignorância de todos ao redor. E você ainda os deixa na ignorância após a merda explodir? Onde estão os direitos desse povo? Se eles fossem bem informados sobre os perigos de um material radioativo, será que o Devair teria roubado o aparelho da clínica? Será que se os profissionais da área estivessem devidamente qualificados teriam abandonado um aparelho perigoso como esse?

A ignorância mata, e matou. A ignorância continuará matando. E a única forma que temos de sobreviver a essa inundação de Erros, é através da informação. A educação de se informar. Precisamos ensinar a pensar, conectar entendimentos, fazer da vida e da informação coisas úteis. E o conhecimento também é a chave para a aceitação social, e com isso as diferenças entre pessoas se tornam apenas argumentações. Resolveremos muitos problemas quando o foco for o conhecimento.

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