A união comunitária6 min read

“Tia Vera, tia Vera, podemos tirar a pipa que caiu no seu telhado?” Sempre ouvia esse tipo de questão Vera sabia que podia confiar nas crianças, eles tinham medo de pedir para as pessoas de outras casas e para evitar os sermões e costumavam invadir tentando habilidades de ladino. Mas a sorte quase nunca visita à favela, porque se visitasse não teria o que comer, ou a probabilidade de funcionar.

Vera queria ajudar a pobreza e disso sabia bem. Pensou no que fazer a vida toda e queria sustentar a bondade. Nos seus discursos ela sempre se fez visível “adoro crianças e sempre que posso estou dando uma coisinha pra elas”. Dona Marluce já pensava diferente, só podia ajudar quando o troco fosse bom, mas dizia na cara de pau que o seu conservadorismo pendurava o militarismo em seu corpo “bandido bom é bandido morto…”, “lugar de bandido é na cadeia!”. Existia uma semelhança entre as duas, um mistério íntimo demais para se entender rapidamente.

Um dia a oportunidade surgiu, um homem inventou um grupo comunitário juntou a igreja e as pessoas mais conhecidas da região, tia Vera foi escolhida pelas crianças e Marluce pelos adultos. Cada pessoa representaria um povo, uma rua e foram seguindo as reuniões. O líder queria resolver os problemas da comunidade, Marluce nem sabia o que significava pensava que comunidade era um bairro ou coisa do tipo, já Vera entendeu sua união com o comum.

— Quero agradecer a presença de todos nessa nossa primeira reunião. É com prazer que iniciaremos grandes mudanças na comunidade.

— Mudar o quê? — disse Marluce baixinho.

— A situação das pessoas da favela. — Respondeu Vera.

— Que situação? Todos estão ali porque querem.

— Ora, Marluce, ninguém gostaria de viver em uma casa de pedaços de pau. Pense um pouco.

— Meritocracia. Você só colhe o que plantou.

Um jovem da favela ouvia devagar e não sabia se responderia com o ódio que sentiu ou respiraria fundo e aceitava as defesas da colega ao lado. Sua mente tomou o controle e ele levantou as mãos.

— Pode falar meu jovem!

— Quero perguntar a vocês: o que realmente todos pensam da favela?

— Ótima ideia! Alguém quer falar?

— Eu!

— Obrigado dona Lúcia.

— A favela é um lugar triste, as pessoas sofrem com fome e sede. Quero ajudar esses coitados com um projeto, talvez dando sopa ou pão…

— Mais alguém?

— Eu quero ajudar com roupas, os meninos vivem sujos pela rua e fedem demais, não da nem pra passar perto. — Disse Marta.

— Eu acho que temos que resolver a questão da criminalidade. Não da pra sustentar bandido. Então temos que botar os pirralhos pra estudar lê se fizer merda ou entrar com droga…RUA! — Disse Onivaldo.

— Também concordo! Vamos levar todos pra igreja pra virarem gente. — Falou Marluce.

— Não somos gente senhora? — Perguntou Adriano.

— Não me leve a mau, todos parecem bichos, nunca vi uma raça tão suja assim.

— Dona Marluce, é com muito respeito que venho refutar as suas palavras. As pessoas estão na favela por falta de oportunidades, a senhora sabe o que isso significa?

— Você só colhe o que planta!

— E quando a sua plantação vive sedo roubada? — continuou Adriano. — Você que vive em casa sem trabalhar por toda a sua vida não sabe o que é tentar procurar emprego e a pessoa lhe julgar pela sua cor, você não sabe o que é procurar emprego e não ter endereço para passar. O seu marido que lhe sustenta, que entrega o seu pão todos os dias, ele deveria estar colhendo, e você? Você nem sequer plantou!

— Me respeite!

— Respeito? O que a senhora sabe sobre respeito? Eu plantei a minha vida toda e entreguei ao mundo minha mente como um gesto de merecimento, e o seu marido conseguiu um emprego sem qualificação. Ou a senhora não sabe que ele não faz nada? Um servidor público que só serve pra bater ponto e ir pra casa. Temos que falar de mérito, dona Marluce, ou de Respeito?

O silêncio tomou conta do lugar. A última palavra ecoou pelo salão como em uma caverna solitária. A solidão existia, mas de uma gente verdadeira e de intenções verdadeiras.

— O povo da favela é sujo. Mas como que faz pra conseguir emprego sujo? Entre na escola infantil e encontre utilidade naquele conteúdo. Pergunte qual professor está preocupado com o desenvolvimento do favelado. Me diga se o mais importante é chegar em casa pra descansar ou resolver o problema daquele aluno tímido que não sabe ler? Encontre uma escola preocupada com o desenvolvimento do aluno, e não com o cumprimento de quadros e listas de ordem contínuas. Se você conseguir encontrar certamente não será acessível para um pobre que não tem dinheiro para o desodorante.

As crianças possuem seus desejos, não podem ter a bola mais bonita, a pipa bem feita, o vídeo game da moda, e quando começam a trabalhar vendendo fruta, velharias e latinhas, o que vão fazer? Adolescentes que não foram crianças gastam o dinheiro da sua necessidade para comprar o que lhe foi tirado da infância. Na favela você encontra famílias que não tem cama, mas uma TV enorme na sala, coberta por um plástico pra não cair água das goteiras.

E como fazer para resolver? Vamos montar um grupo de preconceituosos marcando presença nas ideias da bondade, como se estivesse dando comida para cachorros? O que você me diz mestre líder?

— Peço desculpas a você.

— Desculpas? E as soluções? Não estamos aqui para resolver?

— Infelizmente peço que se retire do nosso espaço, claramente a maioria não quer você por perto.

— Então é isso? Mais uma vez demos as costas para o problema e sustentaremos o egoísmo? Dona Verá, por favor. — Adriano apelou para uma companheira de ideias.

— Acho que o rapaz tem muito o que acrescentar. Nós não podemos deixá-lo assim, ele só não sabe o que está falando. O povo dele sempre vai ser assim, mas temos que fazer a nossa parte como Jesus.

Adriano olhou para a situação é confirmou a semelhança entre todos. A barriga cheia não os deixava enxergar o problema verdadeiro.

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