A Maldita Honestidade5 min read

Em uma reunião com algumas pessoas que se intitulavam importantes, eu me vi ativando o meu maior defeito, acreditar no enorme potencial das pessoas. Um conhecido ao me ver relatar sobre esse defeito, chamou-o de “excesso de honestidade”, mas sei que falar dessa forma de um defeito faz parecer, na verdade que eu me acho o ser que detém excesso de virtude. Mas garanto que não é isso.

Pra falar sério, o meu defeito consiste mais nessa tal de honestidade e costuma se mostrar como a causa de meu rebaixamento prévio. Automaticamente eu prefiro acreditar que estou errado por apenas existir a possibilidade de estar. Isso não é uma virtude, pode parecer para as pessoas que recebem ações causadas pelo defeito. Elas, geralmente são as pessoas que ficam com os créditos e os elogios.

Hoje, quero dizer atualmente, me comporto de forma mais controlada, ainda me vejo tomando aqueles goles de inocência, mas não passam de pequenas gotas que não molham nem a garganta, ficam presas no meio do caminho. Mas neste dia eu não sabia quais pessoas iria encontrar. Me armei com os melhores argumentos referentes às minhas ideias. Chegando na reunião eu tinha um foco claro em mente, teria de falar sobre educação, educação é um dos meus projetos. Mas ao chegar fui surpreendido por uma senhora tagarela que já me desafiava no ato de assinar a ata de presença. Ela me chamou a atenção, porque descobri que eu já tinha boas expectativas dessa pessoa, porque um de seus colegas repetia seu nome e seu ofício constantemente com orgulho. Ignorei a sua personalidade irritante e segui para o que importava. Ao entrar na sala, as cadeiras estavam dispostas formando um círculo, o que já indicava a igualdade do rei Arthur, não teríamos um líder oficial para aquela reunião, me convenci disso ao ouvir as primeiras palavras do colega interessado.

– Vejo que em muitos lugares as pessoas estão esquecendo do essencial – nesse momento eu imaginei que ele soltaria uma reclamação construtiva, mas… – estão esquecendo de Deus. – Miseravelmente falou o educador. – Deus é o nosso refúgio, e é nele que temos que confiar, por isso eu gostaria de convidar todos para uma oração…

O homem se levantou e solicitou que todos dessem as mãos. Eu como ateu, pensei vinte vezes na possibilidade de rejeitar o ritual pelo simples fato de ter sido convidado para uma reunião sobre educação e não para um culto religioso, mas respeitei e sugeri a ação de participar inativamente para a minha mente. Me levantei e participei do círculo. Nesse momento a moça notável de a pouco começou a proferir as mais vagas palavras encontradas em seu minúsculo vocabulário. O seu foco fora “devemos destruir o mal e pregar o bem”. Quando ouvi que ela fora formada em Letras, imaginei estar diante da redatora dos Power Rangers, pois ela só sabia repetir o seu discurso de duas frases sobre o bem e o mal.

Ao terminar aquele construtivo discurso, uma segunda cristã tomou a frente da oração. Essa soube fazer um teatro inteligente. Sua voz soava como um presbítero semi-gay a luz da lua. Repetia súplicas desnecessárias com tom de poesia, de repente a mulher que pedia pelo pão de cada dia conseguia transmutar a frase em algo mais profundo, na escolha do pão.

E então todos sentaram e começaram a reunião. Notei que ninguém sabia o que era uma reunião de negócios, pois o assunto que seguia era de testemunhos de suas crenças religiosas. E as crianças foram esquecidas, essas mesmas crianças que não estão nem aí para os fracos que não se culpam pelos próprios erros.

Respeitei todos os testemunhos, mas não pude deixar de guardar argumentos quanto aquilo. Depois a reunião entrou no preconceito em massa, vi ali educadores e mães dizerem que deveriam afastar uma criança de três anos de idade de sua própria avó por ser lésbica. A desculpa era que a criação copia tudo. Outro rapaz inteligente, queria que sua religião entrasse nas escolas, mas queria que as outras fossem proibidas de entrar, afinal a certeza surgia dele mesmo, e seu argumento comprobatório era “em segunda Timóteo versículo […] a verdade está aqui”.

Foram duas horas dessa mesma conversa que eu não poderia tirar proveito. Em hipótese alguma. Até que no final houve um desafio. A pedagoga letrada se disse curiosa quanto a minha metodologia. Nesse momento o brilho começou a surgir naquele ambiente e minhas palavras seguiram soltas por entre a sala sem interrupções. Todos começaram a repensar sobre seus preconceitos e os exemplos irrefutáveis em que eu os expus fizeram com que a soberania do saber estivesse sobre minhas mãos por alguns instantes. Os adultos preconceituosos e cheios de si, se tornaram alunos dá primeira infância estupefatos com algo completamente novo.

Ao sair da reunião, não pude me conter sobre a vitória e vi que as discussões eram necessárias. O que era óbvio para mim, parecia tão desconhecido para os outros que se tornou algo único em poucos instantes. Pela primeira vez na vida, abdiquei da humildade mencionada nos primórdios e decidi dizer tudo o que tinha para dizer, como se a ignorância fosse a minha arqui-inimiga naquela sala, nada mais importava além dos ensinamentos. Me senti como o único capaz de mudar os que querem modificar o ambiente.

Espero estar certo, espero que tudo não seja uma fantasia difícil de alcançar e explicar. E essa maldita honestidade, poderia se reduzir à uma quantidade suficiente…

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