A cabeça bem-feita11 min read

Edgar Morin (Lê-se morrãn), um pesquisador francês que me inspirou a pensar na conexão das coisas, em seu livro A Cabeça Bem-Feita ele deixa alguns pontos incrivelmente conectados e claros sobre a educação e já inicia com uma afirmação:

HÁ INADEQUAÇÃO cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários. (p.13, 1999).

Estamos vivendo um período de transformações – como tudo até hoje em constante mudança – essas transformações atingiram a educação e a informação de uma forma mais impactante, agora somos capazes de muito mais, de uma evolução mais rápida do que em qualquer outro período civilizatório. Mas para que isso funcione corretamente e mais pessoas entendam o seu papel neste mundo orgânico, é necessário ir além da informação, é necessário atingir um novo pensamento, o pensamento que conecta os pontos da informação e os tratam como pontes para a obtenção de um resultado satisfatório, criativo, prazeroso.

Em uma aula particular de informática, uma aluna me disse que precisava, urgentemente, aprender a usar o PowerPoint porque tinha várias fotos familiares felizes e precisava criar slides alegres dos passeios. As aulas teriam que ser voltadas a esse tema, pois ela não queria passar por nenhum outro meio explicativo de entendimento, acreditou que era desnecessário. Eu tentei explicar o motivo das propriedades de cada programa, e dar um princípio de informática verdadeira para que ela entendesse os padrões de cada sistema, mas era inútil, ela não prestava atenção.

Olhei para ela e então indaguei apelando para o cansaço:

– De quantas fotos você fala?

– Não sei, mas são muitas… acho que umas 500. – Disse a aluna a projetar uma imagem de suas pastas na cabeça.

Fui até as fotos, abri o PowerPoint e comecei a adicionar uma foto em cada slide. De uma por uma. O espanto da aluna foi gigantesco:

– Vou ter que fazer assim? De uma por uma? – Perguntou-me com uma careta esquisita.

– Sim. – Respondi seguro.

Ela automaticamente, pensou em como mudar o argumento sobre o que eu tentava explicar no início, então me perguntou lembrando do que eu havia dito (Eu expliquei no início que os sistemas/programas foram criados cada um para uma finalidade, e era preciso que ela entendesse a sua necessidade para resolver o problema com a ferramenta certa).

– Existe algum outro programa que eu possa fazer isso de uma vez só?

Note que a sua certeza fora completamente desconstruída ao se deparar com o fator Tempo. O PowerPoint de outrora já não é mais o programa ideal para resolver o problema, agora ela precisa de outro que não conhece e não sabe se existe.

O que você pode entender sobre isso?

A conexão entre os saberes é primordial para a nossa vida, mesmo que a aluna necessitasse, naquele momento, de uma ferramenta para criar animações com suas fotos estáticas, seria interessante aprender sobre o princípio e a ideia de cada criação para saber se seus problemas inéditos poderão ser resolvidos. O desenrolar da história: acabei instalando um programa gratuito e simples para resolver o problema, porque ela não precisava de um slide, ela precisava de um vídeo, criado com os slides de suas fotos.

Imagine que agora a aluna está necessitando de uma apresentação de slides para uma palestra. A pergunta é como ela irá resolver? Ela contratará o menino da esquina que mexe com informática para fazer o seu slide da forma mais amadora possível, ou ela aprenderá a usar o PowerPoint por vontade própria?

Se a resposta for o benefício do menino da esquina saiba que no próximo problema a ser resolvido ela precisará de mais uma pessoa, pois não possui algo que eu chamo de “Iniciativa autodidata”. Ela não tentou usar o programa antes de chamar o menino, assim como você que optou pela primeira resposta não saberá como agir em situações problemáticas mais graves. Você e a aluna, esperarão que um alguém mágico circunde o problema e que tente resolver. No fim das contas o crédito pelo slide será de quem pagou por ele. Se isso parecer correto em sua cabeça, vamos tentar dar outro exemplo.

Imagine um escritor, pode ser eu mesmo ou você. Esse novo escritor quer escrever um livro, porém não consegue preencher as páginas em branco com facilidade, e possui vários problemas com o português, o que você fará? Contratará um escritor para fazer o seu trabalho ou se conduzirá a uma caminhada rígida sobre a aprendizagem do ato de escrever?

Um caso recente foi de um Youtuber, que não sabia o que tinha escrito no próprio livro, contratou um escritor fantasma que acabou fantasiando e expressando de forma clara o dia em que a ex-namorada perdera a virgindade. Mas isso é uma suposição minha, segundo o próprio Japa não teve como revisar o próprio livro por falta de tempo (http://www.brasilpost.com.br/2016/05/04/diario-japa-exposicao_n_9841792.html). Para mim, vender autobiografias que você não escreveu é no mínimo antiético.

O que eu quero dizer com tudo isso é que a importância de estudar os casos, de aprender sobre suas próprias ações e projetos é completamente essencial. Isso eleva os motivos do fazer e cria uma facilidade maior para a ação, sabendo que motivar é o que é. Não se faz algo com gosto, quando não se está motivado.

Trabalhei em uma agência de Marketing Digital, ao qual ela mesma se intitulava não agência, mas costumava repetir argumentos e trabalhos de uma agência. O medo de serem comparados a uma verdadeira agência era que o seu trabalho não passava de um amadorismo completo e ainda por cima entregavam menos de 50% do que prometia, o que criava um ciclo sem fim de cancelamentos de contrato. Lá, enquanto eu treinava uma novata eu explicava um pouco sobre o HTML5 e queria dizer a ela o porquê eu falava daquilo em uma aula sobre WordPress. Em pouquíssimo tempo de aula, ela não entendeu a conexão dos assuntos – certamente por estar acostumada a estudar para provas um dia antes da data – e me perguntou:

– Quando vou aprender o que interessa?

Nesse momento eu pensei que a minha aula estava chata o suficiente para que ela corresse para o final, porque o que interessava, com certeza, era o término daquela ladainha. Então pensei que se a teoria não fosse o suficiente eu deveria correr para a prática. Abri um dos sites em WordPress e pedi que ela alterasse a cor de uma sessão qualquer. Ela começou a procurar dentro da ferramenta uma forma fácil e pronta de alterar a cor da sessão, mas o modelo havia sido criado para permanecer naquela cor e por isso ela teria de usar os seus conhecimentos sobre HTML5 e CSS3, que chegavam a quase zero em uma escala de um a dez.

– Como eu vou fazer isso? – Indagou a jovem moça.

Eu respondi sorridente: com o que eu estava tentando te explicar. Ao contrário do que pensei, a moça não ficou chateada com a minha cutucada, mas teve uma explosão de pensamento onde ela alongou a primeira letra com um sorriso:

– Aaaaaaaaaaagora eu entendi.

Após o entendimento da necessidade do assunto, o tempo já não era mais um problema, ela teve de aprender a usar a linguagem para realizar diversas alterações no site que usamos como exemplo. Então, não podemos descartar um conteúdo por não parecer interessante ou por ser contrário a suas opiniões. Um conteúdo de Direita serve como base para o entendimento da Esquerda, pois sem esse entendimento as ações e ideais da Esquerda não passam de ações sem motivos, ou seja, sem motivação. E sem motivação, como vimos acima, há uma enorme redução nas chances de sucesso em qualquer ação.

Podemos pensar então que o ideal para um bom conteúdo é a explicação de sua origem, de seu conceito mais profundo, de sua essência. Quando um professor de matemática explica aos alunos como resolver um simples cálculo em um triângulo retângulo, ele apenas explica como ordenar os números em uma disposição pré-definida. O aluno, por sua vez, poderá se perguntar: – Por que tenho que fazer isso? A resposta do professor pode ser simples, pode ser uma ideia de que a prova está chegando e que todos querem tirar uma boa nota. Ou pode partir para um entendimento mais ideal, fundamental, fazendo o aluno olhar para a sombra de um poste bem na janela ao lado e explicar como encontrar a hipotenusa daquele triângulo formado entre a luz o poste e a sua sombra.

Qual das duas respostas foi motivadora?

Para mais uma explicação, vamos a algo mais comum nos jovens de hoje. Imagine que você terá de fazer o ENEM neste ano, para a redação você se matriculará em uma escola que promete lhe ensinar a construir uma boa redação para o ENEM ou em uma escola que te promete um curso de Produção Textual?

Vamos pensar um pouco. No primeiro questionamento temos um aluno que não sabe exatamente o motivo de ter que estudar trigonometria, e para resolver esse problema ele busca o motivo com o “Por que”. O professor tem duas opções. Se escolher a primeira certamente acreditará que o aluno irá se motivar apenas para passar na prova, se escolher a segunda acreditará que o aluno irá se motivar ao entender o real motivo do uso da trigonometria. A pergunta agora é: se a segunda opção é tão interessante assim, por que o professor não a usa?

Antes de discutir vamos a segunda questão:

O aluno tem um problema que é a redação do ENEM, para resolver ele tem duas opções. Na primeira opção ele aprenderá especificamente sobre a redação para o ENEM. Na segunda opção ele aprenderá a produzir textos no geral e ainda receberá um conteúdo diversificado de leitura e escrita que permite abrir o leque de opções na construção de um verdadeiro texto autoral. A mesma pergunta eu faço, se a segunda opção é tão mais recheada por que a maioria das pessoas opta pela primeira?

Na primeira opção o professor precisaria de um entendimento maior e além de sua licenciatura. Ele teria de ser um professor mais autônomo em suas escolhas para que o curso escolhido fosse aquele que reagisse com fervor em sua mente curiosa e que lhe entregasse uma visão de um pensamento filosófico maior para cada tema estudado. Essa curiosidade iria abrir sua mente para enxergar a aplicação da matemática em objetos simples e conectar a informação recebida em um conhecimento adquirido e aplicável. Mas para tudo isso, o professor teria de se conhecer, teria de ser um alguém decidido a ensinar a matemática. Ou, em uma hipótese mais fácil, ele apenas viu algum outro professor usar essa didática. A diferença é que em situações inéditas o professor que optou pela segunda resposta sairá vitorioso com o entendimento do aluno e o seu vislumbrar. E o professor que optou pela primeira resposta apenas seguiu uma linha confortável e não se arriscou ao difícil.

No caso de sua escolha, talvez você tenha dito: Claro que eu escolheria a escola com o conteúdo específico. O direito é todo seu, porém uma escola focada nesse conceito poderá ter uma visão publicitária do curso, talvez o conteúdo seja realmente específico e ela esteja criando alunos que discutem sobre temas diversos com o entendimento vago de ter de expressar em 30 linhas uma ideia. Uma ideia que, mesmo não sendo a verdadeira, seria a que iria defender para que a nota da prova seja excelente.

Na segunda opção nota-se claramente que o objetivo é muito mais além, pois não é uma prova que importa, mas o desempenho que você terá nela no sentido mais amplo de conhecimento. Obter conhecimento é uma forma de unir informações e saber como aplicá-las no mundo inédito que é o nosso. Até o que é exato, é exato em determinadas condições, e os acontecimentos inéditos podem gerar as tais condições ou não. Se por acaso o tema do ENEM não for o esperado muitos sofrem antes de começar a escrever, talvez esqueçam de algo que é necessário nesses temas, uma abordagem simples de leitura e acima de tudo um senso crítico capaz de analisar um tema e criar opiniões buscando informações.

Para esclarecer melhor a tal ideia da conexão dos conhecimentos, poderia aqui adicionar uma imagem ilustrativa, mas eu sei que você consegue criá-la com sua imaginação e, portanto, segue a descrição: As informações são bolinhas azuis em sua mente dispersas umas das outras, o conhecimento é a inteligência de conectar as bolinhas em um único saber, que é o seu.

Curta e compartilhe!