Subindo as escadas6 min read

Como quase sempre me acontecia, era noite. Era sim uma noite qualquer. Uma boa noite de sono para meus pais, uma boa noite de festa para os gatos dos vizinhos e uma ótima madrugada para sair andando pela casa procurando a porta do banheiro.

Eu estava suando como nunca. Meus cabelos pareciam ter saído de um banho de chuva de poucos segundos, um pouco molhados com a aparência crespa. Em momentos como esses não é estranho reparar nos cabelos, nem me julgue por isso, mas o calor era o motivo do meu despertar e toda a confusão pós-hibernação. Ignorei o peso de minhas pálpebras e segui me esforçando para levantar e não dormir em pé. A minha nuca estava ensopada, decidi como uma sonambula que deveria tomar um banho a qualquer custo e de preferência um banho bem gelado que me fizesse voltar para o quarto tremendo. Calcei minhas sandalhas e saí do quarto.

A porta do meu quarto dava hà um corredor pequeno que tinha duas opções “ir para o banheiro” ou “ir para a sala de estar”, simples assim. Então peguei o caminho da esquerda, onde o banheiro costumava ficar. Andei cambaleando por alguns segundos até que parei para me perguntar o quanto tinha andado. A pergunta me motivou e facilitou o despertar, foi quando comecei reparar no caminho, que estranhamente contava três pequenos passos do meu quarto em direção ao banheiro. Respirei fundo e sorri um pouco, aparentemente eu dormi em pé e fiquei um tempo caminhando em pensamento. Então continuei. Estranhamente o banheiro parecia um pouco distante, não me recordava que aquele corredor era tão grande, acelerei os passos. Mais alguns segundos e nada… semiserrei os olhos para focar na escuridão e enxergar a porta do banheiro, que estranhamente não era fácil de enxergar, apesar de ser uma porta branca recebendo um pouco de iluminação da noite. Andei mais um pouco e me senti estranha. Meus olhos se esbugalharam automaticamente quando girei o corpo tentando ver o outro lado do corredor e percebi que a porta do banheiro estava lá.

Aparentemente eu estava caminhando na sala, porém não me recordava de ter uma casa tão grande. Aceitei o fato e segui para a porta, agora visível. Mais um tanto de caminhada já não sonelenta. E vi a porta se aproximando um pouco mais lenta como se o caminho fosse realmente maior do que eu me lembrava. Dei um pulinho de susto junto à um grito baixo e monossílabo:

— Ah! — Senti uma mão pequena encostar em minhas costas, mas rapidamente virei e reconheci a mãozinha. — Porra Aline, não me assusta assim, eu já estou com medo e você vem assim em silêncio.

Uns cinco segundos de silêncio e achei estranho o fato de minha sobrinha não ter falado nada. Então percebi que não havia realmente a visto, só reparei de relance na mãozinha que me tocou. Senti um frio consumir minha barriga e então girei o corpo novamente…

— Aline? Você está aqui? — O silêncio doía. — Aline…

Nenhuma resposta. Meu sono já havia me deixado e a essa altura o medo conseguiu o que queria. Corri para a porta do banheiro com um certo desespero, mas o corredor parecia ainda mais longo e a porta não se aproximava, como se eu estivesse parada. Foi ai que o silêncio foi sendo substituído por minha respiração ofegante aumentando ainda mais o desespero. Olhei para trás várias vezes e o que via era um manto negro denso, tão denso que dava a impressão de ser um papel de parede, então fui obrigada a parar, pois o manto denso estava à minha frente, sem porta, sem nada. Girei o corpo para o lado contrário e a mesma visão me apavorou. Comecei com uma crise de asma respirando forte com um pouco de falta de ar, que explicava a falta de força para gritar. Senti um arrepio gélido quando a pequenina mão tocou novamente minhas costas. Olhei procurando a criança mas não encontrei, me segurei nas paredes do estreito corredor e tentei gritar. Meus lábios se mexiam, mas o som saía sem vida, sob o efeito da falta de ar e o medo que congelava minhas ações.

— Eu te ajudo moça. — Uma voz de criança susurrou inexplicavelmente dentro de meus ouvidos. A clareza nas palavras e a dicção perfeita criava uma sensação repugnante quanto ao tom agudo da voz. — Acho que precisa de ajuda.

— Eu… eu não… — Gagueijei, enquanto girava o corpo procurando pela criança.

— Eu tiro você daqui.

— Quem é você? — Susurrei.

— Venha, por aqui. — Derrepente a voz vinha de uma direção. Seguí-a. — Venha, venha.

Ela me chamava e chamava, mas eu não conseguia enxergar nada, apenas caminhei. Em um dado momento me vi diante de uma escada em espiral, parecia um tanto curta, mas era parte da casa.

— Você não quer subir? — Perguntou a voz com uma inocência perturbadora.

Não fui capaz de pronunciar nenhuma palavra após chegar nas escadas, apenas fiquei alí, parada. Meu corpo não se mexia.

— Vem brincar comigo. — A voz mesclou de um agudo inocênte para um grave ameaçador. Minha mente rodopiou numa tontura desesperadora, minha respiração conseguia ecooar pela sala de modo que os ecos me engoliam em susurros sem fim.

— VEM BRINCAR COMIGO! – A voz grave gritou. — Fixei os olhas na escada, quando notei que um bebê subia engatinhando os degraus com dificuldade e movimentos pesados. Meu corpo continuou paralisado e agora o arrepio gélido dominava parte. — VEM BRINCAR COMIGO! — O grito foi mais forte. Lágrimas escorreram dos meus olhos quando vi que o bebê erguera a cabeça ao ordenar a última frase. Seu rosto era… seu rosto era.. oh meus Deus… eu não quero lembrar… não me faça lembrar… seu rosto era medonho… sua boca torta espelia saliva vermelha… meu Deus, certamente era sangue… Gritei com todas as forças que consegui encontrar em algum lugar profundo, e foi aí que minha mãe ligou as luzes da sala e me viu diante da escada tão trêmula, tão apavorada.

— Lua? O que aconteceu?

A visão do corredor voltou ao normal, e o banheiro ficava há dez passos do meu quarto.

Curta e compartilhe!