Peter, o comedor de sonhos9 min read

Se era uma criança normal? Claro que era! Você nunca tem como saber o que pode ser de verdade, porque não sabemos de fato se a nossa realidade é esta em que estamos. Talvez você seja parte de algum experimento tecnológico ou quem sabe não é nada, apenas parte de um todo que te entende como insignificante. No caso dele a realidade parecia bem diferente do que nós conseguimos enxergar, eu mesmo não acreditava no que vi até que comecei a pensar mais profundamente sobre o ocorrido e só depois que me tornei adulto que consegui me convencer do que realmente vi.

— Mas você consegue se lembrar de tudo?

— Claro que não, Marina, só me lembro do que foi mais marcante e do contexto geral, não sei exatamente as cores dos quadros que vi, nem das roupas que ele vestia, porém sei que ele vestia roupas e que os quadros possuiam molduras comuns. Você consegue me entender?

— Entendo sim, mas não sei se vou conseguir acreditar no que está tentando me contar.

— Não se preocupe quanto a isso, mesmo que você não tenha certeza, a história vale a pena. Imagino que para aqueles que gostam de terror como você, até que é uma boa história para dormir e construir pesadelos ou aventuras. Mas me deixe continuar.

— Tudo bem, prometo ficar calada.

— Eu era uma criança, tinha apenas 7 anos de idade. Adorava ouvir histórias e entender a cabeça de quem a inventou. Gostaria muito de ter sido uma criança com mais recursos financeiros, mas minha família não se importava muito com o bem-estar de um garoto de 7 anos. Eu tinha uma vontade meio estranha de comprar livros, assim como você, mas não conseguia comprar nenhum e ainda não tinha acesso a quase nada que fosse interessante como eu gostaria e, graças a isso, eu tive que conseguir amigos, amigos reais e alguns que talvez não fossem tão reais assim…

— Como assim? Você via fantasmas?

— Não exatamente, pelo menos eu acho que não. O que acontecia era de eu ter alguns colegas invisíveis e imaginários, que existiam apenas na minha cabeça, nada mais do que isso. Até que um dia eu conheci ele.

— Ele?

— Sim, ele… Um garoto como qualquer outro e ainda gostava de pokémon e isso me deixava muito feliz. Eu podia compartilhar coisas com ele e ainda me divertir com brincadeiras que ninguém mais gostaria de brincar, apenas eu e ele. Nós jogávamos bola, mas não um jogo de futebol comum, sempre tinha alguma coisa para alterar, alguma regra maluca ou pontuação inventada. Ele gostava muito de jogar bola. Um dia, cansamos de brincar e nos sentamos na calçada para descansar, e foi alí que descobri que a lua não era feita de queijo.

— Isso eu já sei!

— Claro que sabe, Marina, você hoje tem mais informação do que todas as crianças daquela época juntas. O fato é que eu comecei a olhar para o céu noturno que derramava sob nós o seu manto negro, porém com aqueles brilhos que eu pensava que fossem pontos estranhos e que podiam ser tão interessante quanto qualquer outra brincadeira. Ele começou a observar as estrelas também e então começou a me explicar o quanto o universo era imenso e que um dia ele iria conquistar mais do que o mundo. Eu duvidei é claro, mas quando ouvi aquilo pela primeira vez, pude entender que existia algo muito além daquilo que eu conseguia enxergar, e um dia eu iria tentar ter essas vontades de exploração.

Ele começou a me explicar o que era a lua e disse que tinha coisas que aconteciam como ele que faziam sua mente alcançar esse conhecimentos e isso era muito legal. Depois daquele dia eu comecei a sonhar mais, e comecei a me imaginar de várias formas diferentes em diversos lugares diferentes. Todos os meus amigos imaginários poderiam participar dessas imensas viagens, no entanto algumas coisas começaram a deixar de fazer sentido. Muitos desses sonhos pareciam tão reais que eu me recordava de muitos detalhes, mesmo depois de muitos dias.

Em uma dessas noites tudo começou a ficar estranho e assustador. Eu me acordei no meio da noite com vontade de ir ao banheiro, mas a casa estava completamente escura e eu não conseguia enxergar nada. Meu coração bateu mais forte, a minha respiração ficou pesada e eu me esforcei para enxergar um pouco de luz, mas nada acontecia, era como se não existisse luz naquele lugar, nem os poucos feixes que passavam pela brecha da porta, nem a luz da noite que invadia meu quarto pelas fendas da janela. Tudo estava completamente negro, escuro de verdade. Eu me levantei da cama e andei no escuro até encontrar a parede do outro lado do quarto, para caminha tateando as coisas tentando encontrar o interruptor para ligar a lâmpada que ficava pendurada no centro do teto. Caminhei devagar com o corpo começando a tremer. Eu já não sabia se tremia por medo era o frio que estava me atingindo com mais força, mas ainda assim continuei tentando. Foi quando esbarrei em alguma coisa diferente e gritei de medo como se estivesse sendo atacado por um monstro gigante. O som que ouvi aterrorizou minha mente de vez e eu corri por instinto para ligar a luz rapidamente. Esbarrei em alguém, eu tinha certeza, e esse alguém gritou junto comigo.

Quando consegui ligar a luz eu ainda estava ofegante, e tentava não perder o controle, queria apenas voltar a dormir sem continuar com aquele sentimento tenebroso de ter vivido um pesadelo acordado. O que me deixou ainda com mais medo, fora o balançar da cortina que cobria a janela do meu quarto. Se a janela estivesse fechada, não haveria vento para balançar, porém alguma coisa havia aberto a janela e eu teria de ter coragem para verificar o que aconteceu. Caminhei lentamente até a cortina, e confirmei a abertura da janela, ainda consegui olhar para baixo e ver que alguém corria para longe da minha casa. Nesse momento não soube se estava dormindo ou acordado, porque depois que isso aconteceu eu apaguei as próximas partes da minha memória, e no dia seguinte fui contar para o Peter, o que havia acontecido.

— Quem é Peter?

— É ele, meu ami… amigo…

Enquanto eu contava para ele o que aconteceu, Peter sorria como se eu estivesse mentindo, mas ao mesmo tempo soltava palavras de conforto, aconselhando minha proteção durante a noite. E na noite seguinte, alguma coisa estava no meu quarto, meus sonhos não apareciam mais, eu não conseguia mais dormir como antes, parecia que eu estava numa capsula, ou em coma, ou em uma viagem astral intensa. Mas eu não dormia como antigamente, que eu descansava bastante e conseguia sonhar. Viajar entende?

Quando contei para o peter mais uma vez ele sorria e dizia que tudo isso iria acabar logo e que eu conseguiria dormir bem novamente. Eu fiquei com um pouco de medo, porque ele falou como se tivesse certeza disso, mas para uma criança de 7 anos a vida não era tão filosófica como ele demonstrava conhecer. Eu também não conseguia raciocinar isso, apenas olhava para ele como um adulto que sabia das coisas, e era estranho para uma criança conhecer tudo como ele conhecia.

Contei para minha mãe dos meus “pesadelos” estranhos e ela não deu ouvidos, disse que era só eu não ficar pensando naquilo que tudo iria sumir logo, mas ela não tinha certeza, o Peter tinha. Um dia eu tentei descobrir onde ele morava, mas ele não sabia dizer, ou pelo menos não queria que eu fosse na sua casa, entendi que ele poderia ser muito pobre ou morar naqueles lugares de madeira perto do rio, mas nunca conheci ninguém próximo ao Peter.

Meu pai também não gostava muito da ideia de ter um filho medroso que tinha muitos pesadelos e que não conseguia conviver com eles. Ele me deu uma bronca dizendo que eu tinha que tomar coragem, tentei descobrir como fazer esse suco, mas sem sucesso. Neste último dia eu fui dormir procurando a coragem em algum lugar profundo da minha mente. Me deite na cama e tentei dormir, cobri meus pés e meu corpo inteiro, como uma proteção extra contra aquilo que tinha entrado no meu quarto outro dia. Algumas horas depois, no escuro, eu consegui dormi, porém por pouco tempo, logo logo a sensação de estar dormindo acordado voltou e me deixou completamente amedrontado, eu observava as coisas, mas não conseguia me mover. Foi quando olhei fixamente para o meio do escuro, porque alguma coisa se mexia bem na minha frente. Alguma coisa perigosa, e que eu não conseguiria me defender. Comecei a me desesperar, tentei gritar, mas não conseguia, tentei correr, mas não conseguia, e aquilo estava se aproximando, se aproximando cada vez mais…

Acordei num sobressalto gritando fortemente, consegui correr rápido e ligar a luz, mas eu ainda estava no sonho, ou alguma coisa estava errada… “Peter é você?“, “não se mexa garoto, isso vai acabar logo logo”… Eu comecei a gritar, enquanto o Peter crescia e se transformava em um homem alto e grosseiro, sua mãos se arrastavam pelo chão e seus cabelos curtos começaram a cair, Peter agora tinha uma aparência careca, rígida e bastante assustadora. “Por favor, quem é você?”, “Eu sou o Peter o seu amiguinho”… a voz de Peter era alta e grosseira, muito forte e estridente, não era o mesmo Peter que eu conhecia, não sabia como reagir e não tinha mais o que fazer, pois ele se aproximou e… me atacou em um pulo certeiro.

Acordei novamente suado e na minha cama. Corri para o interruptor e ao ligar a luz, eu estava completamente só, respirando com força e sem conseguir entender mais nada. Havia tido um pesadelo dentro de outro? “será que estou acordado?”. A realidade já não me parecia distinta, e consegui retomar o controle, mesmo com 7 anos de idade eu consegui entender que tudo não passava de um sonho, ou dois… Até que meu pensamento voltou a ser questionado, quando olhei para o chão e vi pegadas enormes de terra marcando o meu chão…

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