O Mal que se via7 min read

De certo que ele não seria como um alguém comum. Pensou primeiramente em se explicar como um alguém diferente, mas tudo está tão diferente que ficou claro pensar que seria mais igual elevar uma divergência qualquer. Então ele tentou se explicar como um alguém igual, mas igual a quem? Ora, a todos aqueles que de sua personalidade fazem valer a sua igualdade como um todo. Isso poderia ainda ficar confuso para o leitor, e por isso ele pensou que se explicar não seria o ideal logo de cara, tentou então seguir com a ideia até o fim, a explicação viria por osmose.

Mas quem seria ele? Para iniciarmos então vou dizer que ele é apenas ele, o Mal. Quem estiver a ouvir este texto pela leitura de alguém poderia pensar que ele seria o “Mau”, talvez um codinome carinhoso de um certo Maurício, mas isso não é verdade. Este Mal era o Mal com “L” para dizer que ele é contrário do que todos esperam, mas igual ao que todos fazem, ele se chama sim Mal, o contrário de Bem. Que neste início não vale revelar se existe este último personagem ou não.

O nosso amigo pediu-me para não dizer muito de suas fraquezas. Talvez porque não as conheça, talvez porque elas não o caracterizariam como seu nome. Mas segue, finalmente a história, sem explicar os motivos de sua narração, ela segue assim:

O caminhar do Mal era lento e calmo, seus passos poderiam ser comparados aos de uma bailarina, não que ele fosse tão elegante nem muito menos delicado, mas tinha um fetiche por não fazer barulho. Seus dias seguiam como vento, levavam o tempo para o lado mais propício no momento.

Em um desses dias o vento o empurrou para uma loja da comunidade, lá ele entrou e, carinhosamente com um sorriso feliz, deu bom dia para as pessoas que trabalhavam logo a frente. Alguns responderam com olhares esquisitos e outros diziam mais um bom dia obrigatório – talvez se xingar fosse comum naquele lugar ele devesse solicitar um desses para ser mais bem recepcionado.

Uma compra simples, ele queria alguns reais de carne vermelha e logo uma sacola transparente fora preenchida. O Mal não sabia muito bem escolher carne, mas ouviu falar de um amigo açougueiro que quanto mais vermelha mais gostosa a carne seria. Ao olhar para a sua sacola o marrom escuro da carne pareceu o incomodar um pouco, mas o Mal era incapaz de fazer o mal a alguém e por isso não iria reclamar com o funcionário que o serviu, apenas levou acreditando que ele estaria errado sobre a carne e ao levar ao fogo ela estaria em ótimas condições. Afinal, ele era o Mal, quem poderia ser ainda mais?

No caminho ao caixa, uma dupla de crianças corria derrubando as pilhas de biscoitos das prateleiras, o Mal se sentiu completamente no dever de ter de consertar aquele erro, pois o responsável pelas crianças sorriu enquanto repetia que as traquinagens dessas crianças eram normais e engraçadas. O Mal estava agachado apanhando biscoitos de morango, mesmo preferindo os de chocolate e doce de leite. Em sua mente ele se perguntou por um instante por que estou fazendo isso?

Se a resposta fosse fácil de responder ele não estaria pensando nessa pergunta, mas ainda assim levantou alguns argumentos internos e concluiu que ele adorava fazer o que era contrário ao que o caracterizava. Não porque ele quis assim, mas porque ele teve de ser assim. Nada como um pouco de moral para elevar a felicidade de um homem.

Ele terminou de arrumar tudo, um pouco mais interessante do que a antiga forma que os biscoitos estavam dispostos. Seguiu até o caixa e foi pagar pela sua carne, o olhar da moça do caixa era de reprovação.

– Algo de errado com a carne senhora? – Perguntou o Mal, entendendo a expressão esquisita.

– Não de forma alguma, pode levar, isso aqui é carne de primeira. – Respondeu a moça estranhamente forçando um sorriso.

O Mal sabia que aquela situação parecia estranha, e seus conhecimentos diziam que a moça estava a forçar uma mentira, mas ele, amigável como sempre, pensou: – Eu posso estar errado, e ela apenas com uma irritação na garganta.

Não questionou e continuou. Seu corpo sentiu algo diferente ao olhar novamente para o corredor de biscoitos quando os meninos voltavam a desfazer toda a sua arrumação. Os biscoitos estavam ao chão novamente. O Mal não soube como reagir, pensou em reivindicar, mas o responsável não parecia se importar talvez porque ele irá arrumar tudo assim que terminar de fazer as suas compras pensou ele. Afinal quem iria deixar aquilo para um inocente não é mesmo?

No caminho de volta para a casa, o Mal resiste olhar para trás. Um barulho começou a chegar a seus ouvidos, parecia um grupo de pessoas brigando. Ele não tinha nada a ver com aquilo, mas e se pudesse fazer algo para resolver? Olhou então para trás e o responsável pelas crianças discutia com os funcionários do mercado para não ter de arrumar tudo aquilo e ainda dizia que sustentava todos ali com compras minúsculas.

O Mal acabou fazendo o que não tinha costume de fazer. Ignorou o problema e seguiu. Viu uma senhora carregando um peso enorme, preferiu ir ajudar, mas ao tentar argumentar uma ajuda, a senhora o chama de ladrão e informa com clareza que sua saúde ainda era de respeito, portanto a ajuda era algo inútil e insultante.

Aquilo ainda não iria abalar o Mal, não se por ele ser o Mal ou por ele ser um alguém calmo naquele dia. No caminho os barulhos pareciam não acabar, as brigas entre os vizinhos eram estranhamente repetitivas. Um líder comunitário estava a estrondar as paredes com o rufar dos seus enormes caixas de som pagos pela comunidade. A música que tocava declamava posições sexuais em um tom poético, pois ainda existiam aqueles que diziam “Isso é música”. O mal tentou explicar para o Líder que ele poderia abaixar o som em 50% e ainda sentiria os tímpanos estourarem.

Quem dera que o Mal tivesse dito assim, na verdade ele apenas informou calmamente e gentilmente que os outros moradores estavam com problemas para viver naquele dia.

– O senhor poderia diminuir um pouco o volume?

O líder bêbado não poderia fazer isso e ainda berrou:

– Quem manda nisso aqui sou eu!

O Mal seguiu em frente, ainda tentou solicitar aos moradores uma força de união, mas os mesmos diziam que o líder sempre fazia isso e não desligava o som de jeito nenhum. Era difícil.

O Mal saiu de lá pensando no difícil, pois se é difícil já significa que não é impossível, pois alguém poderá conseguir, mas a comodidade da população o fez ir para casa.

Em casa seu muro recém pintado tinha um desenho tribal escrito com uma folha verde, o texto não parecia dizer nada, mas ao pensar mais profundamente ele entendeu que se tratava de um nome, um nome ainda escrito errado: Craúdia (Cláudia). Respirou fundo e obteve um fôlego maior ao argumentar consigo mesmo que aquilo não passava de uma expressão artística de um jovem deprimido que não encontrava folhas de papel com facilidade para seus rabiscos.

Em sua cozinha a carne não amolecia, por mais que o gás do seu botijão prateado já tivesse sido desperdiçado com as tentativas, a carne não amolecia. O Mal sabia que todos os cidadãos daquela cidade eram bons, e só faziam o bem, porque ele sabia que se reivindicasse algo ele continuaria sendo o Mal e nada que fizesse poderia mudar aquilo. Mesmo que câmeras comprovassem, mesmo que a punição fosse severa.

O Mal continuou a relevar aquelas situações, se olhou no espelho e tentou não parecer mal, afinal como diziam os Estoicos Romanos, para uma boa vida é necessário aceitar a vida como ela é, pois o mundo nunca irá mudar para o que você quer.

A última pergunta que faço: Então o que deveria mudar, as atitudes do amigo Mal ou as dos cidadãos de bem?

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