O Caso Lopes: Capítulo 1 – Culpa8 min read

O negro e longo manto da noite, estampava pequenos e questionáveis pontos de luz no céu, que traziam consigo as maravilhosas sensações de solidão, o momento perfeito para preencher o tempo com o mais puro companheirismo.

As brisas, naquela noite, expressavam uma calmaria tão mansa que o desejo que surgiu na mente de Jorge, foi de transformar um assento plástico em sua varanda um dos mais confortáveis lugares do mundo, para passar o tempo contando as infinitas estrelas, buscando certa ajuda em raciocínios mais amplos. E então, tomou Jorge um puro gole de coragem sobre a incansável luta contra a preguiça. Sentou-se como desejara, mas de longe o assento plástico se tornara o mais confortável, porém ainda assim, o silêncio cuidava do desconforto e tratava de escondê-lo com afinco.

Jorge observava atentamente o céu negro com todos os seus encantos e pensava sobre o dia em que suas ações iriam fazer parte daquele mundo, o dia em que seus pesadelos teriam um fim.

Ele fixou o olhar nas luzes lá fora, e se sentiu só. Tentou esquecer os erros que cometeu, que custaram caro. Imaginou ser inocente em meio a imensidão do acaso, porém sabia que merecia se culpar pela solidão exorbitante que o consumira naquele instante. Acreditou por um tempo que ele deveria lutar contra sua memória, e que deveria reinventar seus costumes para obter sucesso em um novo romance.

Os olhos de Jorge seguiram algo em movimento, um movimento extremamente rápido. Quase impossível de se enxergar minha imaginação.

Jorge ignorou o ocorrido e tentou retomar o pensamento melancólico, porém a sombra o surpreendera novamente, desta vez de forma mais perceptível. A sanidade o abandonou por alguns segundos e fez com que se levantasse de seu assento. Logo a sombra o sobrepôs várias vezes e Jorge não conseguia enxergar o que o circundava, nada lógico poderia consumir sua mente em meio à duvida que sentia. Como uma sombra poderia se projetar sem ao menos um corpo?

– Apareça! – Gritou Jorge em uma louca tentativa de desvendar o mistério.

Imaginou ter afugentado o animal, porém não acreditou que se tratava de um. Alguns minutos depois, o silêncio voltara a tomar conta do lugar, e a triste respiração solitária e ofegante de Jorge estava de volta aos seus próprios ouvidos. Sua imaginação se contentara com a ideia de avistar um animal.

– Droga! – Exclamou em desabafo. – Estou ficando louco, sentindo medo de um pobre pássaro.

Com esse louco acontecimento, ele entendeu que precisava dormir. Entendeu que, mesmo sem ninguém, ele era alguém. Seguiu até o banheiro para lavar a rosto e descobrir em seu reflexo a enfermidade de sua juventude ser estampada em seus olhos. Águas escorreram por sua face, e nenhuma gota foi ao chão, pois a mão esquerda de Jorge já preparava uma toalha de algodão branco para enxugar de vez as lágrimas escondidas por entre as gotas de água. Esses poucos minutos foram suficientes para que ele esquecesse do acontecimento estranho, mas não foram suficientes para que o medo o abandonasse.

Logo seguiu ao seu quarto, desta vez com sentimentos nulos, e tentou encontrar o mais confortável pijama que possuía, mas o valor que ele dava àquela noite fria era maior do que sua percepção de erro, então ele acreditou que tudo estava dando errado por apenas ser incapaz de encontrar o pijama.

– Merda, como poderia ter sumido? Não tem ninguém aqui. – Esmurrou o armário com uma agressividade desnecessária.

Agarrou-se em uma roupa qualquer e vestiu-se. Mas logo que esticou o corpo em sua cama, um barulho o incomodou. Jorge esforçou-se para permanecer em silêncio, mas descobriu que não era nada de importante. Então deitou-se e brigou por alguns minutos contra o sono até ser nocauteado com um golpe certeiro.

Escolhas são difíceis. Um passo em falso e sua vida pode se despedaçar rapidamente, mas e se suas escolhas fossem o início da destruição de outra vida? Qual seria o preço a ser pago? Alguns irão pensar que uma vida se paga com outra, outros podem acreditar na redenção, mas seja qual for a resposta a mesma não terá mais importância, porque a destruição já fez a sua parte.

Helena saia de casa todos os dias no mesmo horário, retirando de sua rotina os dias de domingo que costumavam ser inovadores. Saindo de casa virava à esquerda e seguia lentamente até a estação de trem, geralmente às 6h da manhã ficavam poucas pessoas por perto e por isso ela andava sempre tranquila naquele horário com passos lentos e aproveitando a boa música que tocava por autofalantes pela estação. Algo relaxante para começar um dia de trabalho duro.

Tomava sempre um café pequeno de cortesia na lanchonete de um de seus clientes e seguia para iniciar a espera pelo trem. Sempre conseguia chegar no horário certo, a pontualidade definitivamente era o seu forte. Sentou-se em um dos bancos vermelhos grudados na parede e relaxou as pernas. Logo pôde ouvir o barulho dos trilhos e seguiu o seu caminho.

Sentada no trem, um jovem rapaz a observava como se a admirasse, no início estava tudo certo, porém alguns minutos depois Helena se sentiu incomodada e mudou de lugar, mas o jovem a seguiu e sentou-se ainda mais perto. Notando esse método esquisito de conhecer alguém ela perguntou:

– Você precisa de algo?

– A senhora não é a advogada do caso Lopes? – Indagou como se estivesse esperando o mínimo de contato para perguntar.

– Sim, sou sim, eu o conheço?

– Não, de forma alguma, eu sou um parente de um dos envolvidos.

Nesse momento a advogada sentiu no corpo uma brisa gélida e achou estar em apuros.

– Oh, deve ser difícil para você! – Sua voz saiu um pouco trêmula.

Olhou atentamente para o rosto do rapaz, ele tinha olhos castanhos e estavam bem abertos e vidrados. Seu cabelo, também castanho, era bem penteado, um corte curto e social uma pequena franja curvava a direita. Suas roupas comuns, eram comuns, um jeans azul que parecia novo, uma camiseta verde-clara sem propagandas, sem dizeres. Ele era normal, aparentemente, mas o que dizer de normal? O que é ser normal?

– Aposto que a Sra. Adorou ter ganho naquela noite.  – Ele falou com um tom assustador.

– Fiquei feliz pelas vítimas, mas nada de especial.

– Mas só você sabe como é difícil fazer mais do que o seu dever. – O homem agora estava de pé, esperou o trem parar e seguiu quando a porta se abriu. – Não vem doutora? Seu escritório não fica longe daqui.

Imediatamente as portas do trem se fecharam deixando o esquisito do lado de fora. Helena descobriu algumas coisas nessa conversa:

Ele sabe o que eu fiz;

Ele sabe onde eu trabalho;

Será que estou sendo seguida?

O caso Lopes foi por muito tempo, a atenção de Helena. No relatório consta que três assaltantes invadiram a casa da família Lopes e cometeram crimes horríveis. Torturaram duas crianças, estupraram as mulheres da casa, espancaram o Sr. Lopes, e levaram tudo o que tinha de valor incluindo o que tinha nos cofres. Ainda saíram tranquilamente e fugiram da polícia por mais de um mês após o ocorrido. A justiça prendeu três suspeitos, mas não tinha provas suficientes para continuarem detidos, então a família contratou uma Advogada para “adiantar as coisas”, e por fim os bandidos estão presos, é isso que todos esperam.

O medo de Helena ao encontrar um parente dos criminosos poderia ser interpretado de várias formas. O parente pode ser um criminoso também, e busca vingança, o homem poderia apenas ter tido um momento de raiva quando a viu entrar no trem ou existe algo de mais perigoso nesse caso.

Dois anos se passaram após o término do caso Lopes, o que poderia acontecer? Partindo desse pensamento, seu coração começou a se acalmar, seu corpo parou de tremer, mas ela já havia passado do ponto como informara o homem, seu medo impediu seu corpo de se levantar na estação certa. Teve de ir ao seu escritório por outro caminho.

Em dias comuns Júlio, retirava o lixo, varria todo o escritório, verificava o filtro de água, sempre empurrava todas as cadeiras para fora “se eu fizer bem feito, ela reclama, se eu não fizer bem feito, ela reclama”. Sua chefe sempre reclamava ao ver ele arrastando as rodinhas das cadeiras pelo chão áspero de fora do escritório, ele sempre resmungava, porque o escritório era pequeno não tinha como limpá-lo completamente sem retirar as cadeiras.

Esse era o único problema de Júlio todos os dias, pois o restante do expediente era completamente tranquilo, nada para fazer, apenas relaxar sentado em sua salinha ouvindo as músicas antigas que tanto gostava.

Ele ouviu passos lentos se aproximarem, então correu imediatamente para fora do escritório para tentar colocar as cadeiras de volta a seus lugares, a sua chefe estava chegando com certeza.

Ela passou por ele:

– Bom dia Dona Helena, eu já estava colocando no… – Júlio fora interrompido.

– Bom dia, tudo bem, pode terminar o que estava fazendo.

Nenhuma bronca, nada. Helena parecia estar com os pensamentos em outro lugar. Tentou esquecer do caso Lopes, mas não conseguia, sua mente remexia sem dó, palavras repetidas. Culpa, insegurança, justiça…

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