Eu não sou daqui15 min read

Se o sol matinal despertasse em mim o mesmo sentimento que parece despertar nos atletas que se importam com seu corpo, eu certamente não estaria deprimido logo pela manhã.

O acordar, também parece não ter efeito. O sentimento cansativo e exausto do final do dia ainda permanece bastante firme e já me disse que não pretende ir embora. O que eu devo fazer? Dormir parece fazer o tempo passar mais rápido e essa ideia atrai meu corpo que busca a solução para esse desejo de não mais existir. Meus olhos, logo concordaram e eu tive de ceder a dor de voltar a assassinar aquela manhã.

É. Se formos conversar sobre o que eu fiz neste dia, podemos entrar em análises profundas sobre o sono. Mas a verdade é que eu me fiz inconsciente por quase todo o tempo. Se o almoço me custou vinte minutos devo dizer que comi bem, ironicamente. A noite seria a parte mais longa das 24h. Essa minha crise existencial não é algo novo, na verdade, tenho mais o que dizer sobre “existência” do que muitos dos viventes por ai. E olhe que não falo de noites com ressacas e drogas alucinógenas. Falo dos meus dias em que meus olhos enxergaram o fracasso.

Eu já quis alguém, ser de alguém, amar alguém. Ela não sabe ao certo o que significa ser um fracassado, mas eu devo admitir que este fracasso só está comigo, na verdade. Ela tem um jeito de sucesso, ou melhor, um corpo de sucesso. Segue por aí fazendo o que bem entende, conquista todos os que escolhe e no final não precisa sofrer por amor. O meu problema já foi sobre mim. E sobre ela. Eu e ela. Nós dois. Talvez eu não consiga nem ter o direito de dizer palavras tão unidas, porque não passei de um observador distante. Nem ao menos um bom dia fui capaz de proferir.

Mas vamos mudar de assunto, deixemos esse sentimentalismo para depois. O que é necessário agora é que você me conheça como de fato tem de conhecer. Alguns me chamam de fracassado outros de anti social, e ainda tem aqueles que insistem em insultos ao meu porte físico, mas imagino que você é diferente destes a que me refiro, portanto me chame pelo nome. Pedro. Sem sobrenome por favor, para que não fique muito formal, não acrescentarei nenhum outro Pedro nessa história, não porque me recuso a escrever meu sobrenome, mas sim porque eu realmente não conheci e nem falei com nenhum Pedro, até esse momento que aqui escrevo.

Para que você me conheça de verdade, pretendo explicar mais sobre minha vida, personalidade e o que tiver em minha mente para detalhar. Sempre que penso em escrever uma autobiografia fico confuso e não sei por onde começar. Posso tentar falar um pouco da minha família ou talvez pular essa parte e já mencionar o que me define, mas ai alguns detalhes poderão passar despercebidos pela falta de certos relatos. Então acho que o melhor a fazer é começar a contagem crescente desde o meu nascimento. Não espere que eu saiba como fui concebido, apenas sei que nasci, e se me lembro bem nunca ouvi falar o nome do hospital nem me lembro de ter lido em algum documento. Portanto eu nasci.

Nasci em uma cidade, saiba que no Brasil. No nordeste do país. Gostaria de saber se fiz alguém feliz com o fato de ter nascido, mas pelos anos seguintes me parece que ninguém esteve contente após a ejaculação. Como você acha que eu vivi? O que houve em minha infância de extraordinário? Sob óticas diferentes, fui feliz ou triste, amado ou odiado.

Meus pais, dispersos. Distantes. Esquisitos humanos. Minha mãe em específico viveu para mentir. Tantas histórias criou em sua mente, esqueceu de jogar em palavras a sua imaginação, assim ela poderia saciar a sua vontade de inventar sem ter de machucar ninguém. Culpa da falta de orientação, ou talvez da preguiça mesmo já que as histórias que conheço vieram dela mesma, nenhuma evidência. Ela perdeu uma filho enquanto tentava defecar, parece que após limpar a sua bunda escorregou e machucou a barriga. Não que isso seja algo engraçado, mas a forma como ela explicou parecia o Jack Chan grávido lutando capoeira. Isso não é importante.

Meu pai, gosta muito de dormir e ganhar presentes. O trabalho ideal seria “Analista de amizades”. Ele sabe, como ninguém, tratar as coisas com seus amigos coronéis. O peixe sai mais barato com um sorriso e um aperto de mão, do que a honestidade de enfrentar filas. Você sabe do que eu estou falando.

Antes da filiação vieram os avós, mas como disse que iria contar a partir do meu nascimento o ato sexual dos velhos não importa. Durante a infância eu vivi em silêncio. Durante a adolescência todos os problemas familiares, traições e mentiras foram superadas sem problemas, na verdade eu ainda estava em silêncio. Essa introversão toda me permitiu desenvolver algumas habilidades diferentes. Isso é o que eu conto quando alguém me pergunta sobre como eu era na adolescência, se for explicar na sinceridade minha personalidade não é algo de que eu me orgulhe.

Minha profissão não tinha de ser outra, em meio aos problemas da vida os relatos em papel me fizeram bem treinados. Eu sou escritor. Não o escritor que escreve para este Blog, mas Pedro, o escritor. Um escritor comum. Sem grandes sucessos e nem expectativas que sigam J.K. Rowling.

Sobre o amor? Não queira me perguntar algo tão importante tão rapidamente. Eu não quero lhe contar, não sei se notou. Mas tudo bem, não vou deixar que você gaste todo esse tempo de sua vida me cobrando essa história, não precisa insistir mais.

Eu tinha um alguém, não sei exatamente como explicar. Na verdade já me apaixonei por duas vezes. A primeira durou muito tempo, queria namorar aquela menina. Esse foi um sentimento tão antigo que acabo me esquecendo as vezes como descrevê-lo, não como descrevê-lo em si, mas as palavras certas ainda ficam em épocas antigas. Ela parecia um anjo enquanto eu tinha a ingenuidade de uma criança. Olhava para ela sem entender o que sentia, mas parecia que eu estava completamente entorpecido. Esse foi o inicio de minha introversão.

Não espere obter descrições físicas dela. O meu fracasso não me permite hoje falar sobre isso, portanto saiba apenas que ela era linda – é na verdade. Sob minhas estúpidas ações, passei boa parte do tempo planejando o que dizer, como abordar, como iniciar uma conversa em momentos de encontros por acaso, e se ela respondesse eu teria que saber exatamente o que dizer. Mas tudo não passou do planejamento e meu desejo parece ainda viver aqui, escondido nessas palavras, porque ela eu já perdi.

Um certo cara a conquistou antes de mim. Na verdade nem sei se posso dizer que ele a conquistou antes de mim, porque tive quase vinte anos de chance e não fui capaz de me aproximar, nem para ser um colega. O medo é com certeza o sentimento chave para esse episódio de minha vida.

Mas agora quero contar as minhas últimas tentativas de sucesso. Para desabafar mesmo, e não para ser adorado. Até porque foram apenas tentativas, porque o lugar onde nasci possui algo sobrenatural, uma força gravitacional extraordinária que me puxa para baixo com violência sempre que levanto voo – fantasiando um pouco.

Comecei a tentar um negócio novo, iniciei como redator, escrevi para algumas empresas, mas ai meus pais, como sempre amorosos e preocupados comigo, estavam a me deprimir rebaixando meus trabalhos, acabei reduzindo a produção e perdendo clientes. Um puro caso de depressão.

Depois consegui um emprego em uma seguradora, meu serviço não correspondia a minha profissão dos sonhos. Mas tive de pedir demissão quando comecei a não aguentar mais os maus-tratos do chefe. Os meus nomes diários estavam me enchendo o saco – eu era chamado por todos os nomes referentes ao anjo de luz caído. Mas minha carreira não parou por ai, segui para uma vidraçaria, lá o amor ao vidro era intenso e alguns já tinham conhecido a fusão da dor com o vidro e o sangue de suas caras. Meu medo falou mais alto.

Na área da administração nada me veio a carteira além de alguns bicos como vendedor auxiliar. Uma mistura de faz tudo administrativamente com faz tudo da venda. Auxiliei bastante esta ultima empresa, eu fazia o trabalho de quatro pessoas ganhando por meia.

Mas eu tinha mais esperanças. Queria me fixar em algum trabalho para conseguir investir em meus estudos, já que na adolescência quando eu deveria ter uma chance dessas, não tive quem investisse em mim, apesar de morar com meus pais. O que torna minha vida um pouco triste, porque após os atropelos e fracassos comecei a enxergar as dificuldades em que fui inserido logo ao nascer. Observar os filhos dos chefes representarem com arrogância o dinheiro de seus pais, me subiu a cabeça como pura inveja.

Em outros momentos eu não entendia a falta de atenção que tive, até observar a exorbitante atenção que algumas pessoas tinham de sua família. Conheci algumas mulheres que cursavam faculdades, eram mais velhas do que eu, trabalhavam em postos maiores e não bancavam nada, ainda moravam na casa de seus pais e viviam de mesadas. O que eu não acho que seja interessante para o desenvolvimento de alguém, mas o fato de não ter nem o valor de um curso profissionalizante a meu favor, começou a doer bastante.

Escrevi sobre isso. Escrevi sobre aquilo. E ainda escrevi sobre chorar e pensar em futuros distantes e melhores. Na época em que eu sai da casa de meus pais, aluguei vários quartinhos para morar. Nessa época, além das pancadas no trabalho (que já falei um pouco) eu não conseguia viver como uma pessoa normal viveria. Novamente só comecei a ter certeza dos meus problemas ao reparar na vida de outras pessoas. Vi um amigo reclamar que a água do seu chuveiro estava ruim porque o aparelho que a esquentava havia quebrado e ele teria que se banhar em temperatura ambiente. Ao ouvir esse amigo, me veio a tristeza de não ter água no chuveiro para tomar banho, mas todos os dias, às 4h da manhã uma torneira pequena começava a pingar, e era lá que eu recolhia o que precisava.

Em outro momento, vi uma amiga reclamar de mosquitos. Não pude deixar de pensar nas minhas tentativas de dormir sem ser acariciado por baratas. Um chefe veio reclamar do almoço de um restaurante próximo, ele havia comido demais. Particularmente eu não quis nem pensar sobre aquilo, mas a verdade é que eu já não aguentava mais aquele arroz com salsicha de sempre.

Depois que vi esses problemas, notei que a mulher que me alugou o quarto, possuía água na torneira em abundância, e fui perguntar o que havia acontecido. Ela se esquivou de várias formas e no fim das contas eu vi que ela controlava o quanto de água eu usava. Não pude dizer mais nada. Saí daquele lugar.

Na próxima morada, as baratas ainda existiam, e os ratos passaram a fazer companhia. Agora o meu novo problema era com o preço abusivo da conta de energia elétrica. Para gastar energia eu usava uma geladeira e uma lâmpada fluorescente, e nada mais. No fim do mês a conta surgia com o valor gasto por uma família com seis pessoas repleta de aparelhos eletrônicos. No final descobri que a vizinha me roubava. A vizinha era a dona da casa.

Na terceira morada, com meus dezenove anos ainda, o problema pareceu que havia sido resolvido, mas a dona da casa exigia o pagamento da conta referente a distribuição de água em mãos. A explicação era uma antiga dívida, ela queria quitar a dívida parceladamente junto a conta mensal. Confiei e passei a entregar o valor correspondente a meus gastos mensalmente. Após 3 meses cheguei em casa e descubri que a companhia havia cortado a distribuição de água. Foi quando soube que a moça não havia pago nenhuma das contas que entreguei em suas mãos.

Na quarta morada, a casa estava esquisita. Uma parte estava em construção, recebi a promessa de que eles acabariam rapidamente, mas ao chegar o inverno perdi os poucos móveis que tinha com a chuva se acumulando no teto e escorrendo por entre as paredes. A dona da casa fugiu do confronto, nunca mais apareceu colocou um amigo para intermediar a conversa. Acabei sem ter o que fazer e sai daquele lugar.

Após esses acontecimentos eu estava a me tornar um alguém amargo. O trabalho era recheado de sacanagem. Os colegas eram como leões famintos e selvagens, suas presas eram as mulheres que se faziam de indefesas. O roubo era constante. Os sócios das empresas roubavam o próprio negócio, os funcionários roubavam o próprio setor, minha mãe roubava meu pai. Meu pai roubava no trabalho. Os vizinhos roubavam a comunidade. A comunidade roubava o governo. O governo roubava o povo. O povo roubava o povo…

Os motoristas não respeitavam os pedestres. Os pedestres não respeitavam os motoristas. Os técnicos de informática não respeitavam os clientes e os clientes não respeitavam os técnicos. E por aí um problema tentava justificar o outro. Eu ficava no meio tentando entender os motivos de tudo aquilo. E o meio não entendia que aquele ciclo teve um início e o fato de você não concordar já criava uma possibilidade de encerrar.

A cada passo que dei, um alguém me passou a perna. E sempre que me levantei trouxe alguém que estava caído ao lado. Esse alguém me passou a perna e seguiu de pé. O engraçado é que ainda descrevo tudo isso no passado como se isso ainda não acontecesse normalmente. Quanto mais vivo mais sinto que devo parar de agir corretamente. E sempre que acredito em alguém, me decepciono em ver a falta de moral. O mais interessante é saber que isso é apenas uma falta de entendimento sobre o que é o bom convívio humano.

Meus sentimentos foram moldados, a minha personalidade passou a ser mais agressiva e eu estou sempre em modo de defesa. Mas mesmo após tudo isso eu ainda experimentei a esperança. A esperança de encontrar um lugar que eu possa me encaixar em uma vivência harmoniosa. Não peço muito, aceito burocracias e diferenças, mas peço apenas que a corrupção seja da minoria e não da maioria.

Como ia dizendo, apesar de sentir como se eu não fosse daqui, experimentei a esperança, a esperança de encontrar alguém que pense da mesma forma. E para a minha felicidade ela era linda.

Começamos a conversar por uma das mais aleatórias e maravilhosas ações do acaso. Ela pensava como eu, explicou diversas ideias políticas e filosóficas. Eu ouvi, concordei e discordei e pela primeira vez o discordar não foi um insulto, foi apenas uma percepção diferente já que nós estávamos debatendo dispostos a mudar de ideia. E tudo era interessante. Algum tempo depois eu já estava apaixonado, não sabia o que fazer, encontrei alguns defeitos, expressei os meus, mas nada que não fosse de se admirar, tenho em mente que os defeitos são completamente aceitáveis e comuns, e o fato de os conhecermos significa que conheço intimamente alguém.

Tempos depois decidi expressar minhas intenções, foi quando o rumo da conversa mudou. Desejei que eu fosse o único na sua vida, mas como sempre, o meu medo deve ter atrasado demais. Um outro cara apareceu. Ela veio desabafar sobre isso, desejei a morte do rapaz, mas no fim perdi para mais um. E perdi para um cara que era a personificação de tudo o que eu odiava e o que ela dizia odiar. No fim das contas não soube como agir e acabei na mesma, sozinho, sem esperança tentando descobrir uma forma de não me encaixar em algum lugar ou na vida de alguém.

Mas sobre tudo o que vivi e ainda tenho que viver obrigatoriamente, sei que não sou daqui. Não pertenço a esse lugar. Nasci por um acaso desta vez infeliz, que não me posicionou em um lugar corretamente. E este é o ponto em que percebo que ainda não vivi o suficiente, e preciso de mais para desistir. Por um lado isso é algo bom que me enche de forças para seguir, por outro lado, a tristeza surge diante de uma pouca vida conturbada, pois sei que, apesar de viver pouco, tenho razões para reclamar e cansar de ser jogado ao chão. Por isso que em mim mora a dúvida de estar errado por reclamar demais e estar certo por reclamar demais.

Prometo a você que viverei um pouco mais. Isso que escrevo não é uma carta de despedida, mas se você se sente assim como eu, deve saber que o melhor título para esse texto é o que representa meu pensamento atual. Eu não sou daqui!

Curta e compartilhe!