Dionísio4 min read

Dionísio era um Deus poderoso. Posso dizer que nos tempos atuais se sua fama ainda estivesse em alta, ele conseguiria dominar o mundo com seus poderes alcoólicos, mas na época que sua glória existia não tinha muito o que fazer, pois os homens se destruíam com mais facilidade e ele nunca ganharia de Afrodite.

O Dionísio que trago hoje tinha um poder, e acreditava nisso, porém não era um Deus, muito longe disso. Alguns o colocariam no outro extremo da classificação. O glamour do seu chará não brilhava junto ao seu. Ele era um cara bastante normal, tinha de escovar os dentes espremendo a embalagem da Colgate. Acordava sempre no mesmo horário sem despertador, porque seu relógio biológico funcionava bem ao combustível fome. Ele tomava um banho gelado e se vestia com a roupa velha do dia anterior.

Durante o dia, optou por não usar o seu poder. Correu atrás de oportunidades de emprego como um jovem qualquer. Tinha a idade certa pra conseguir um trabalho digno, mas o mercado não gostava de suas roupas e a cor da sua pele não era tão interessante como ele imaginava.

Dionísio não tinha uma boa escolaridade, não achou que seria tão importante, tendo em vista que seu pai também havia passado pelo mesmo processo, mas se sustentou sozinho sem escola durante a vida toda. Ele tinha um sonho de ser rico para comprar qualquer coisa que quiser sem olhar para o preço. Sua infância deixou muitas vontades, como a coleção dos bonecos do dragon ball z ou aquele vídeo game que tinha o jogo “Metal Slug”. Ele não queria saber dos consoles mais avançados. Sem falar do tal do Facebook que ele fez durante uma hora na lan house. As meninas adora conversar pelo chat.

À noite ele ainda não havia usado o seu poder. Todos os dias ele saia e pensava que não iria mais usá-lo porque uma donzela em perigo iria se apaixonar por ele em um momento insano e mágico, mas os dias se mostravam fracassos intensos, um após o outro. Na tentativa de esfriar a cabeça, deixou sentar-se em um banco de uma praça do bairro, o relógio já marcava 00h, mas Dionísio não sabia e nem queria voltar para casa e enfrentar aquele calor de sempre.

Por um instante ele observou uma oportunidade, preparou o seu poder e espreitou. Correndo na pista da praça, uma linda jovem filhinha de papai. Seus fones de ouvido tocavam o mais novo hit da Anitta, o som saia de um iPhone X recentemente adquirido no aniversário. O mérito não havia atingido a garota, mas Dionísio sabia disso, mesmo assim elevou suas esperanças. Quando tentou se aproximar a sua pele negra assustou a moça que abandonou seus exercícios e começou a fugir como se estivesse escapando de sequestro.

Na mente de Dionísio ele perdeu a chance de conseguir um romance de cinema, no estilo A Dama e o Vagabundo, porém foi visto como um ladrão e não pôde usar o seu poder de sedução. O ódio dominou pelas próximas horas e o fez buscar por novos poderes, desta vez algo que o faça um homem de verdade e com muitos atrativos.

Dionísio passou a noite pensando em como abordar a moça, inclusive criou algumas teorias sobre uma possível rejeição. Se preparou para o pior e aguardou o mesmo horário no dia seguinte, lá estava a moça correndo com sua elegante riqueza em cada ponto do corpo. Dionísio esperou que ele completasse uma volta e chegasse perto do local onde ele se escondia. Ele, então apareceu e gentilmente perguntou se podia acompanhá-la nos exercícios, mas a moça tinha um toque de meiguice misturada a arrogância da sociedade. Ela teve a mesma reação do dia anterior, expressando apenas o seu preconceito com medo do jovem pobre Dionísio.

Dionísio a viu correndo para fora da pista olhando para trás em pânico. Ele não soube ao certo se aceitava o acontecido ou pensava em uma forma mais legal de chegar nela, pois nem a sua nova roupa havia mudado a reação. Notou que ela o olhara como todos os outros donos de empresas que o rejeitaram em entrevistas de emprego.

Os olhos do garoto derramaram mais algumas lágrimas e o seu novo poder estava pronto para entrar em ação, ninguém mais poderia rebaixar Dionísio, ele se tornara um Deus, escolhendo entre a vida e a morte. Dionísio levou a mão a cintura, se preparou e atirou na moça que caía com o impulso inesperado na nuca.

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