Águas cinzentas6 min read

Os dias atuais estavam a desordenar meu pequeno mundinho isolado.

A manhã estava acinzentada, cabeças apareceram diante das ruas, as janelas foram preenchidas por pessoas curiosas. Os olhares da maioria carregavam um certo medo, porém eram claramente atraídos pelo fenômeno ao céu.  E quanto mais se olhava, mais a escuridão tomava conta das nuvens visíveis que já se tornavam uma só. Nem as sombras dos corpos vagantes era perceptível, porque a luz estava se esvaindo de forma estranha.

Minha visão era um tanto clara, controversa ao fenômeno obscuro. De minha janela eu podia descrever aqueles seres curiosos como corpos vagando famintos por algo de novo, sendo alimentados pela falta de intelecto que fazia com que aquele vislumbre fosse o ápice de suas esperanças. Aquele dia não estava nada bem, porém ainda consigo acrescentar bons modos à minhas palavras e posso dizer, sempre que solicitado, o quanto ele foi diferente. Digo isso para não parecer rude, mas a verdade é que nada me interessou naquele dia.

O céu estava como descrevera o noticiário:

Tempestades fortes atingirão a região de Ludia, o governo anunciou estado de alerta e solicitou que ninguém saísse de sua casa enquanto continuar o perigo. Prepare-se com velas e lanternas, a tempestade será longa e perigosa.

Uma tempestade forte ameaçava cair e os curiosos andavam pelas ruas olhando para o céu, como se não soubessem o que uma chuva forte com raios é capaz de fazer.     Eu, por outro lado, sentei-me na varanda para apenas observar e julgar do meu modo aquela burrice eterna. Ouvi uns amigos mencionarem que isso não era burrice, era felicidade, eles apenas estão deslumbrados com a visão negra do céu, já que em Ludia, as chuvas são finas e não machucam ninguém. Era de fato uma novidade para a cidade e apenas os mais ricos estavam completamente seguros com suas casas enormes e alojamentos subterrâneos, segundo a dedução do Rick.

Continuei a observar do meu primeiro andar até a chuva começar a cair e o vento a empurrar para dentro de minha casa. Nada agradável, entrei tranquei as portas e liguei a Tv.  Mais alguns segundos e descubro que o dia monótono poderia ficar ainda pior, nada de energia elétrica, o aviso foi dado por um estrondo em um dos postes que ligavam um tipo de disjuntor. Sem TV, sem luz, e uma chuva barulhenta lá fora. Um bocejo meu pareceria até uma birra.

– Eva! – Gritou uma voz jovem e alta bem na minha porta.

– O que você quer? – Respondi já sabendo que se tratava do idiota do Rick.

– Eu vim passar a tempestade com você, vamos Eva abra.

Fui forçada a imaginar algumas situações. Ele não teria mais opção além de entrar ou ficar encostado em minha porta até a chuva passar, então deixei que ele fizesse o que queria.

– Obrigado, quando pensei que você estava sozinha não pude me conter e acabei correndo para cá.

– Não precisava se incomodar.

Meu apartamento era no primeiro andar de um prédio de 5 andares, cada andar continha dois apartamentos. O meu possuía uma cozinha de uma pessoa só, um banheiro nanico, uma e uma sala/quarto que eu compartilhava com as visitas. O detalhe mais crucial é que eu nunca recebia visitas, só o Rick que nunca me deixa em paz.

– E como anda sua vida solitária?  – Perguntou-me um pouco cansado.

– Espero sinceramente há cinco anos que você pare de me fazer essa pergunta.

– Ok então, é que eu me preocupo com você.

Permaneci em silêncio para tentar ignorar situações emocionais em plena tempestade. Aos vinte e cinco anos de idade percebo que ainda não sei como me portar nessas situações, e o Rick está comigo desde sempre, um amigo que não me deixa.

Sentamos e conversamos como dois adultos que não se viam a um tempo, até dei uns sorrisinhos espontâneos durante a conversa até que um clarão me assustou, um piscar silencioso. Alguns segundos depois o estrondo tirou minha atenção, apesar de esperar o barulho dos trovões, o som foi tão alto que me surpreendeu. Por um segundo meus olhos viraram para Rick e ele não estava lá, mais um segundo e ele voltara para o mesmo lugar, mas eu não pisquei.

– O que foi isso? – Indaguei atônita.

– Trovões. – Respondeu ele sem ao menos hesitar.

– Não foi isso… Esquece, acho que me assustei um pouco.

E mais uma vez minha casa fora invadida pela luz dos trovões que foi seguida pelo som ribombante de seus efeitos. Onde estava o Rick?

– Rick!? – Gritei em desespero – Onde você se foi?

O silencio voltou a ser comparado a queda das águas barulhentas da sacada. O desespero se tornara maior, eu não tirei os olhos dele.

– Rick!? – Corri para a cozinha, tentei o banheiro e nada. Ele não poderia ter saído pela porta em um segundo.

Saí pelo corredor do prédio e desci as escadas, olhei em volta e ninguém estava por ali. Não havia porteiro, não havia ninguém. Minha solidão começara a doer verdadeiramente. Corri até o meu apartamento e vesti-me com o sobretudo negro de Rick, peguei um guarda-chuvas que estava encostado no canto da porta e segui para fora do condomínio.

Ninguém nas janelas, na rua, ninguém nas vendas ou garagens. Pensei que poderia apenas ser a tempestade que levou todos a se recolherem no interior de suas casas. Mas o Rick? Ele sumiu diante dos meus olhos.

A Chuva era forte, difícil de andar, não dava para enxergar nada além do cinza das águas se fundindo a um cenário civilizado de prédios acinzentados, o asfalto era escorregadio e os bueiros estavam cheios. Nada para ver na rua, ninguém.

Meu desespero estava apenas começando, trovões barulhentos amedrontaram o meu corpo, o frio me fazia tremer, mas agora eu já não controlava minhas pernas. Por mais que tentasse retornar, minhas pernas se moviam só, me tornei uma espectadora daquela viagem assustadora. Minha boca abria se esforçando para gritar, mas o som não saia. Tropecei em uma pedra e caí com os joelhos no chão, olhei para as águas que diminuíam a velocidade que escorriam pelo asfalto, logo levantei-me e a chuva havia parado misteriosamente.

Meu corpo estava de volta ao meu prédio e todos olhavam para um acidente que acorrera entre dois carros e o muro do condomínio. Da minha varanda uma mulher olhava com certa injuria para o acontecimento, eu estava na varanda. Meu corpo continuou à andar como os corpos que vagavam até uma ambulância que se escondia por trás do desastre.

– O que vai acontecer com ela? – Perguntava um dos indivíduos presentes no círculo de curiosos ao redor da ambulância.

– Uma menina tão jovem. – Dizia uma mulher entristecida.

– Alguém sabe ao menos o nome dela? – O paramédico indagava alto.

– Eva, ela é uma amiga! – Rick estava a derramar lágrimas sobre meu corpo ensanguentado na maca.

As nuvens negras apenas choravam uma despedida inevitável.

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