A Escuridão e o Escritor3 min read

Às 4h19 da manhã vivo as loucuras de um escritor com a mente tonta como em um pesadelo semiacordado. Uma casa pequena, com dois cômodos nada espaçosos e um banheiro, não sei o que devo usar como quarto e o que devo usar como sala/cozinha/quintal/e o caralho. Como se já não bastasse todos os problemas de espaço, não se trata de uma casa pequena, mas de uma casa pequena compartilhada com outras três casas pequenas. De modo que nenhuma delas possui controle sobre o que a abastece, mas uma das casas manipula todo o resto. O aluguel se torna caro quando esses problemas são enfrentados corriqueiramente, enquanto a pobreza dominar os odores do meu corpo.

Nesse momento eu me encontro de frente ao meu notebook, com o corpo completamente suado e sem energia elétrica. Desativei o wi-fi para economizar bateria e abaixei o brilho da tela para o mínimo possível, para não machucar tanto os meus olhos estigmáticos. No entanto ainda não consigo suportar por inteiro o brilho do editor de texto branco. O LibreOffice Writer é um editor legal, instalado em uma distribuição linux bastante elegante, e ainda com uma aparência de trabalho que me exclui a sensação de recreação do Windows 10.

Um barulho voltou a engrandecer a minha vida. A energia elétrica estava de volta ao seu funcionamento pleno em um mistério maligno. Parece que o morador da casa/centro sentiu o calor escorrer por suas costas, e notou que toda a rua estava iluminada. O mesmo barulho de disjuntor disparando me acordou de um sono leve para caralho, em que eu lutava com um monstro colorido que acabara de ver em um filme com a minha filha. Era uma espécie de Megazord de lego”, ela chamou de “Nindroid”, algo com ninja e android. Eu poderia simplesmente dizer o nome do filme, mas não ficaria tão elegante se eu demonstrasse uma boa memória agora, nesses momentos alguns escritores preferem omitir a honestidade fingindo não se importar com uma droga de um filme de criança; talvez eu tenha feito isso corretamente.

O fato é que se meus medos estiverem certos, a falta de energia me inspirou a escrever sobre o que está acontecendo no atual momento e para exemplificar a minha visão, eu diria que a escuridão prega mais peças do que eu possa aguentar. Se meus olhos pudessem falar com o terror do meu semblante expressariam em palavras pesadas o fresco tremor de minhas pernas. Enquanto escrevo e me alimento de uma lógica que possa me salvar caso esteja certa, alguém está sentado em uma cadeira de balanço bem ao meu lado esquerdo. O ranger do balançar fez meu coração palpitar. Estou um pouco ofegante. Não consigo identificar a imagem, não sei se é uma pessoa, mas o movimento amedronta minha alma.

Acho que devo fechar a tela e procurar uma lanterna para verificar se tenho razão ou se ela já me abandonou com o despertar da madrugada. Nesse momento, meus olhos estão esbugalhados com a atenção na escuridão à minha frente, pois a cadeira parou de se balançar. Eu não consigo mais parar de escrever. É como se minha mão se entregasse ao teclado de forma rápida e sincronizada, porque minha mente não para de criar imagens irreais em meus olhos. Um corpo humano se deslocou no meio da penumbra. Oh, meu Deus! Parece real! O que é isso? O que devo fazer, não tem nenhuma brisa nesta casa, e os cabelos… os cabelos… estão se mexendo como se a gravidade… Puta merda! Eu não consigo me levantar, não consigo parar de escrever, meu corpo está imóvel. Droga! Não se aproxime! NÃO SE APROXIME! POR FAVOR, ME SOLTE… EU NÃO CONSIGO RESPIRAR… POR FAV…

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