A casa da rua 448 min read

A casa da rua 44 estava vazia quando eu a vi pela primeira vez. Por mais que as caixas estivessem pesadas, eu tive de retornar com a mercadoria e ainda receber uma bronca do meu chefe.  Mas da segunda vez alguém estava lá, eu sei disso.

Eu cheguei normalmente carregando as duas caixas em meus braços, coloquei-as no chão com cuidado e comecei a observar aquele lugar. A estrutura não era de uma mansão, mas parecia uma casa de uma família que um dia fora rica, talvez tenha criado essa visão por causa dos portões da frente. Apenas os portões grandes e enferrujados formavam a frente da casa, duas colunas laterais os sustentavam. A casinha no meio do quintal grande me parecia um tanto acabada, mas apesar das folhas secas se amontoarem pelo quintal, alguém morava naquela casa, eu vi.

Observei por algum tempo e comecei a bater palmas e gritar a nome do destinatário:

– Sr. Helton, sr. Helton!

Tentei gritar mais alto, porém nada acontecia. Procurei por alguma brecha na casa, para tentar descobrir se tinha alguém a me observar, mas o que vi fora a porta de madeira da casa se abrir lentamente. Forcei os olhos para enxergar o que havia lá dentro, mas só pude enxergar a penumbra.

Eu estava certo, havia alguém ali dentro, talvez agora tenha me escutado, talvez perdera as chaves.

Não olhe no rosto da criança – uma voz quase que sussurrou em meus ouvidos.

Sobressaltei. Do meu lado esquerdo um velho maltrapilho encostado em uma das colunas repetia as palavras olhando fixamente para frente. Seus longos cabelos brancos eram assustadores

– Não olhe no rosto da criança, acredite, não olhe no rosto da criança.

– Como assim? Que criança? – Indaguei confuso.

– Não olhe no rosto da criança.

Mesmo assustado eu tive que tentar ignorar aquele velho caduco, porque não havia nenhuma criança por perto e o que poderia estar errado com uma criança?

Continuei a chamar até que ouvi mais um movimento. Atrás da porta existia algo de peculiar além da penumbra. Meus olhos se fixaram, passei alguns minutos em silêncio só a observar. Meu corpo me dizia que existia algo ali, e eu teria de ver. Maldita curiosidade.

A porta se abriu mais um pouco, de um jeito tão assustador que fui incapaz de culpar o vento. Continuei a olhar, nada que eu pensasse se encaixava com a situação, eu já estava a levar aquele momento para o lado sobrenatural. E para piorar a situação, para onde fora o velho maltrapilho?

Uma pequenina mão segurava na parede, agora eu podia ver, mas quando ela foi parar lá? Eu não vi esse movimento, apenas estava lá. Ou aquela mão já fazia parte do cenário e eu só notei naquele instante ou aquilo se mostrou completamente veloz.

Nada em impediu de gritar novamente, agora eu já sabia que alguém estava lá, e sabia que eu estava ali. Imagino que tenha aberto a porta, e que os barulhos que ouvi tenham sido causados por ela.

– Sr. Helton? Aqui é da Distribuidora, pode receber essa encomenda por favor?

E meus gritos foram mais uma vez em vão, nenhum efeito sobre a mão, nenhum efeito sobre a porta, e aquela rua era um tanto silenciosa. O velho maltrapilho se fora, para onde eu não sei, provavelmente para o mesmo lugar de onde surgiu que quase instantaneamente me assustou sem ao menos notar sua presença.

Já desistindo mais uma vez, olhei para a outra esquina, onde o caminhão estava estacionado, quando saí de lá com a mercadoria ele estava visível bem na esquina, mas agora não conseguia mais enxergar, gostaria de acenar para o motorista e pedir um gesto de desistência. Foi quando ferros se bateram em minha frente, e eu virei amedrontado, o portão da casa estava a balançar, as folhas secas do quintal se moveram e subiram circundadas pelo vento. Meu coração estava acelerado, meus olhos já não encontravam mais o que analisar, se moviam desesperadamente a procura de uma resposta para aquele enorme susto, mas o uivar do vento só piorava as coisas.

Foi aí que comecei a me acalmar, e voltei a atenção para a mão na parede que saía da penumbra fielmente. Ela não havia se movido, continuava ali, daquele mesmo jeito assustador. Resolvi desistir com um pensamento completamente rude, já julgando aquele lugar como assombrado. Recoloquei as caixas nos ombros e segui de volta para o caminhão. E as coisas começaram a ficar mais estranhas ainda.

A rua era pequena, e eu andava rapidamente por ela, a fim de sentar no banco do carona e correr dali para nunca mais voltar. Já havia elevado o exagero às loucuras daquele dia, porém ao chegar na esquina meus olhos esbugalhados seguiam o mesmo movimento de minha boca lentamente aberta de espanto com o que vira, pois, depois de alguns minutos andando pela rua em sentido contrário a casa, eu estava de volta a esquina ruim, de frente a casa. A mão permanecia no mesmo lugar, mas o que havia acontecido?

Eu não andei? Eu voltei para o mesmo lugar? O que aconteceu?

O desespero deixou de ser especulativo, e suor fazia frio em meus braços. O velho maltrapilho estava atrás de mim.

– Haja o que houver, não olhe nos olhos dele. – Disse mais uma vez com a voz cansada.

– Olhos de quem? O que houve? Viu alguma coisa? – Em meio a essa enxurrada de perguntas, o velho havia desaparecido, realmente desaparecido. Eu só podia estar ficando louco…

Uma voz de criança se aproximou de mim, e meus pensamentos se torceram e voltaram para as falas do velho, os olhos dele.

– Oi, moço! – Repetia a voz.

Para cada lado em que eu girasse o corpo a voz parecia estar bem atrás de mim, era como se eu nunca tivesse virado, a casa permanecia do mesmo jeito, não havia ninguém naquele lugar além da mão imóvel que era engolida pela penumbra daquela sala.

O desespero só aumentava e comecei a procurar por pessoas, corri para as duas extremidades da rua 44, mas sempre que sincronizava as pernas em repouso eu estava de volta à frente da casa. Comecei a gritar imóvel, pensei em como reagir contra qualquer um que se aproximasse, meus pensamentos estavam completamente atormentados e eu violento contra ninguém. A voz do menino nunca parava, o que era aquilo, de onde estava vindo. Estapeei meu rosto com força, esfreguei meus ouvidos para tentar parar de ouvir, mas o som só aumentava, por mais que eu tapasse os ouvidos.

Foi então que vi em minha frente, bem junto a meu rosto… aqueles olhos negros e enormes fixados a mim, o rosto pálido daquela criança era assustador. Por um segundo pude ver seus olhos, meus gritos aumentaram, fui jogado para trás com o susto. Aquele terror parecia não acabar. No chão, caído, ao olhar para a casa as lágrimas se formaram e gosto salgado já percorria meus lábios, mas eu estava em silêncio, pois a penumbra da sala estava saindo e engolindo tudo o que havia pela frente, o céu, as árvores. Eu seria engolido, em um último momento de lucidez, respirei fundo e só pude aceitar a derrota, chorei como uma criança…

– Luiz! Luiz!

No escuro eu estava ouvindo de longe a voz de meu amigo gritar meu nome, meus olhos se abriram lentamente até ver o céu.

– Luiz, o que aconteceu cara? Você caiu, desmaiou de repente.

– Como assim? – Eu perguntava completamente tonto, enquanto me levantava.

O Velho maltrapilho estava a minha frente, dizendo que tentou me acordar, mas eu não me mexia, e ele havia avisado que a campainha estava com problemas.

– Acho que você levou um choque nessa campainha. – Dizia o Renato.

– Eu não me lembro de nada disso, mas… eu me lembro que…

– Esqueça, vamos embora, não tem ninguém na casa, acho que estão viajando. – Renato, agora, segurava as duas caixas nos ombros.

– Vá com Deus – Dizia normalmente aquele velho maltrapilho.

Enquanto eu andava lentamente pela rua, pensava em minha loucura que sonho maluco. Meus passos estavam mais lentos, realmente sentia uma certa dormência, mas senti um enorme alívio ter sido apenas um pesadelo, nada que eu não pudesse esquecer.

Agradeci ao Renato por me ajudar, e sentei-me no banco do carona. Até que algo me amedrontou novamente… A mão de uma criança segurava o muro da esquina, e em um último suspiro ela se moveu e acenou para mim.

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