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Capítulo IX - Paraíso

Carlos Hallan   -   21, Agosto de 2016

Descrever aquelas ruas não era algo importante, mas Edgar repetia sempre em seus textos era como se ele estivesse sempre tentando extrair as melhores visões que teve durante sua vida naquele lugar. E ainda mais após seu encontro com Sara que trouxe um certo nível de esperança que não iria se esgotar tão cedo. Por outro lado, Sara também não conseguia o tirar da cabeça, queria outro contato.

 O problema se iniciava sempre que tentava pensar nisso já que não sabia muito sobre as informações mais formais de Edgar. Ficou à espera de uma visita por alguns dias, mas nem o viu. Diferente de Júlia ela nem tinha uma ideia de onde ele morava e por isso não seguiu por aí perguntando o paradeiro de um homem. Isso porque sua família religiosa preservava a imagem de boa gente a todo o custo.

Para evitar sermões religiosos e conversas constrangedoras ela não contou a ninguém que tinha conhecido um rapaz. Seria algo um tanto estranho para a sua família saber que sua filha havia passado uma noite inteira com um cara qualquer em um bar cheio de bebidas alcóolicas e perversões contra os princípios conservadores de suas crenças. Claro que ela sabia que sua vontade de o reencontrar acabaria nas tenebrosas conversas que estava evitando, isso ela não poderia guardar por muito tempo. Ela chegou até a pensar em frequentar o bar da esperança mais vezes, mas isso ficou apenas no pensamento. Em vez disso ela aguardava pacientemente em sua casa esperando que ele a visitasse um dia desses.

Edgar estava mais tranquilo depois de alguns dias de sua demissão, escrevia com a vontade de um verdadeiro escritor, suas palavras estavam cada vez mais cheias de emoção, sua história era quase um romance bonito explicado detalhadamente em todos os seus cadernos. Ele então se sentiu no dever de visitar Sara, já era hora de retomar a sua ideia amorosa com aquela que o chamou atenção.

O relógio já marcava às 17h de uma sexta-feira e o crepúsculo desenhava uma paisagem indescritível junto as nuvens. Edgar Passou pela casa de Júlia com passos lentos e olhou para dentro, ela não estava em casa e nada de rosas desta vez. Sua caminhada fora uma das mais tranquilas que ele já havia feito durante muito tempo.

Sara estava a sua espera como de costume, mas não achou que ele a visitaria às 17h da tarde, ela sabia do seu horário de trabalho e por isso não insistia muito nesse pensamento foi o que proporcionou a Edgar uma experiência diferente: ele chegou e teve de chamar por ela, a mãe de Sara estava em casa se preparando para ir à igreja e foi até a porta meio confusa – eles acabaram de se mudar e ninguém a conhecia, então não seria normal alguém em sua porta chamando por sua filha que, também não tinha muitos amigos.

- Boa tarde, desculpe incomodar, mas a Sara se encontra? – Perguntou Edgar ao ver a senhora sair pela porta.

- Quem é você? – Desconfiada a Sra. Judite foi bem direta.

- Eu me chamo Edgar, sou um amigo de Sara.

- Minha filha não conhece nenhum rapaz chamado Edgar. – Dona Judite já desconfiava mais do que podia.

 

- Certamente ela não contou que nos conhecemos, peço desculpas, mas ela está? – Insistiu Edgar.

- Não, ela foi à igreja. – Mentiu dona Judite.

Sara terminava seu banho e nem imaginava que algo pudesse estar acontecendo. Enquanto Edgar insistia por mais informações Dona Judite começava um sermão religioso de longos minutos até que se deu conta de que preferia que ele se fosse ao invés de ouvir os seus sermões – Sara não podia vê-lo até elas terem uma conversa muito séria – Mas seus esforços foram em vão, porque Sara ouviu a voz de Edgar ao longe e correu para verificar, viu pela janela ele se despedindo de sua mãe e dando meia volta.

- Edgar! – Gritou Sara abrindo a porta para o jardim.

Sua mãe estava espantada, os olhos de Sara estavam à brilhar de uma forma que nunca ela nunca vira e o ignoraram por todo o percurso.

- O que faz por aqui?

Dina Judite não mencionou uma palavra, pois estava sob os olhos reprobatórios de Edgar ao ser desmentida em poucos minutos.

- Queria te convidar para um jantar naquele lugar. – Disse Edgar voltando para perto da casa.

- Um jantar a essa hora? – Sara indagou sorridente.

- Não pode fazer muita coisa quando se está com fome não é mesmo? – Edgar sorriu de volta.

Aquela conexão reciproca incomodava dona Judite, e esse seria o seu pensamento por vários dias, ela sabia disso. Teria que fazer algo para impedir isso, como explicaria para o Pastor? Como explicaria para suas amigas? Para seu marido? Aquilo que ela acabara de ver foram imagens chocantes, sua filha conheceu um rapaz qualquer que não era da igreja, e eles ainda trocavam segredos aquele lugar...

- Espere que vou me trocar!

Enquanto Sara corria para seu quarto dona Judite a seguiu e iniciou seus sermões religiosos de longos minutos:

- Quem é esse homem Sara? Você não vai sair com um desconhecido! – Gritava Judite sem se importar que seus gritos pudessem ser ouvidor pelo desconhecido lá fora. – E me explique que lugar é esse que ele fala, você não pode sair com esses ímpios!

- Mãe, sou bastante adulta para sair com quem eu quiser, se você não o conhece isso não é problema meu! – Respondeu com a voz tranquila e ainda animada.

- Não acredito que você está me enfrentando por causa desse... qualquer...

- Não fale assim dele! Ele é uma ótima pessoa, me deixe escolher o meu futuro que eu lhe deixo em paz em poucos meses. – Sara agora proferiu palavras mais concretas de seus planos.

- Como assim seu futuro? Você já está namorando esse homem? Me responda! – Gritou ainda mais, Dona Judite.

- Ainda não, mas espero que não demore muito! – Sara agora sorriu com mais vontade.

- Eu não acredito no que eu estou ouvindo... minha filha fugindo dos caminhos iluminados que preparei para ela... oh senhor peço que não a castigue tanto quanto ela merece! – As coisas que Dona Judite sabia fazer muito bem, falar de seus problemas na terceira pessoa e ameaçar todos com a justiça de Deus.

- Não me espere para ir à igreja, até mais tarde! – Sara saia de sua casa sorridente enquanto se despedia de sua mãe que ficou para trás resmungando.

No caminho ao Bar da Esperança o assunto do casal foi, claramente, a família de Sara. No bar eles continuaram a conversa e quando Sara acabou de contar suas presepadas religiosas e experiências esquisitas com seus pais, Edgar ficava ainda mais sério tentando mudar de assunto sempre que podia. Ele sabia que sua família seria algo a se comentar, mas não explicou nada, apenas o mesmo de sempre.

- Eles se mudaram para o interior de Pernambuco há alguns anos.

Nada mais que isso.

A conversa continuou por muitas horas. Aquele dia foi ótimo para os dois e Sara queria seguir em frente, queria fazer valer o que disse a sua mãe, já que depois daquela conversa ela sentiu que devia se tornar mais independente e então conduziu a conversar pela noite, nas ruas, sob as mesmas luzes que eles haviam se despedido da primeira vez. Eles andavam lentamente e suas mãos já estavam juntas outra vez.

- Não vai me explicar mais sobre as luzes dos postes? – Perguntou Edgar.

Sara parou, virou, olhou nos olhos de Edgar...

- Eu acho que quero parar de falar um pouco e ver o que silêncio de agora pode fazer por nós.

- Concordo com você, mas mesmo que...

Edgar fora interrompido por algo inesperado... um beijo.

Sara mantinha os olhos fechados e flutuava por entre o gosto. Seu rosto enrubescido revelou seus sentimentos sinceros sobre Edgar. Ele descrevera assim:

... seus olhos cintilavam um castanho claro, as lágrimas aumentavam a graciosidade do brilho. Seus cabelos escorriam sobre os ombros, e uma franja cobria alguns detalhes de seu olho esquerdo, porém revelava a sincronia das cores de seus olhos com seus cabelos. A simetria existia em sua boca, aquele sorriso simples marcado por traços naturais que explodiam a beleza de sua pele branca.

Perguntei se ela queria ser minha namorada e ouvi um sim como resposta. A primeira palavra que conseguiu abalar o meu mundo por completo, estremecendo meu ego e reduzindo-o a pó. Formou-se em meu peito um sentimento quente, por incrível que pareça, gerou um frio questionador no estômago.

Passaram pela minha cabeça milhões de possibilidades de vida em menos de um minuto. Os sentimentos fervilhavam minha alma como se a tivesse jogado em um forno preaquecido e deixado lá por várias horas.

O vento soprou forte naquela rua e soltou ruídos que enfatizaram a sensação de estarmos à sós. Por fim segui meus instintos e me aproximei de seu corpo. Ali de pé – completamente a sós em nossos pensamentos – me aproximei mais um pouco, e fui comandado por sua respiração doce. Um aroma delicioso que penetrou em meus pulmões enchendo-os com paz. O mais difícil era sustentar o fôlego.

Com todas as minhas forças tentei tirar meus olhos de sua boca, agora serena, e foquei o meu tempo em seu olhar que magicamente se encontrou ao meu expandindo a intensidade das explosões das batidas do meu coração. Horas pareciam se passar, mas era óbvio que apenas segundos foram utilizados, e ao encostar em seus lábios fui obrigado a fechar os olhos e abdicar do mundo real para acreditar em algo divino como o paraíso...

 

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