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Capítulo VIII - Dona Zuleide

Carlos Hallan   -   21, Agosto de 2016

Edgar chegou em casa sentindo como se um peso tivesse sido retirado de suas costas. Só o fato de saber que não voltará para aquela empresa já o deixa bem mais tranquilo. Ele sabia que teria dificuldades para encontrar outro emprego, mas o soco na mesa de Keller compensou qualquer transtorno.

Escreveu sobre o que seus amigos fizeram com ele e, novamente, desejou estar em outro lugar, viver em harmonia com pessoas mais interessantes. Ele tentou contar quantas pessoas bondosas ele encontrou durante sua vida inteira. Sua irmã estaria no topo da lista, tão bondosa e gentil que preferia deixar ser picada por uma formiga para salva-la do que agir rápido e matar para não sentir dor. Ele pensou em Júlia quando criança, ainda conseguia se lembrar daqueles cabelos, embora comentou que adulta ela permanecia com a mesma aparência, e levantou um enorme talvez sobre Sara.

...

Apesar de saber que Edgar havia a visitado a pouco tempo com uma mulher ao seu lado, Júlia sentiu que deveria se arrumar um pouco mais, borrifou seu perfume doce no pescoço e ao sair arrancou uma rosa branca e colocou sobre o cabelo.

Não sabia onde ele morava, mas sabia que era ali perto, andou por algumas ruas e saiu perguntando aos moradores, o que achou incrível foi que ninguém sabia ao certo que ela falava. Todos agiam como se soubessem quem ele é, mas não se recordavam. Ela andou por mais algum tempo até que um morador mais idoso apontou exatamente para a casa.

Ela parou de frente a casa e notou que não haviam flores, mas o espaço era bom para plantar. Aos seus 23 anos sua mãe faleceu, e ela só teve coragem de seguir em frente após a morte da velha, e uma das iniciativas seria conversar com Edgar. Começou a bater no portão, mas não teve sucesso até que chamou pelo nome e ouviu uma resposta.

- Oi! - Disse Edgar se espantando com a presença de Júlia.

- Oi, lembra de mim? - Perguntou Júlia, querendo que a resposta fosse um pouco mais complexa.

- Claro, o que você está fazendo aqui?

- Bom, eu só vim conversar um pouco e tentar me desculpar por algumas coisas. - Júlia já não sabia como conduzir a conversa.

- Se quiser entrar... - Edgar apontou os braços para dentro.

- Aceitaria.

Eles entraram e Júlia se sentiu um pouco estranha ao olhar para a visão extremamente pobre da casa de Edgar, tudo era velho demais, e empoeirado, como se ele não limpasse a vários meses. Na verdade, o chão estava bem limpo, mas o teto e as paredes...

Eles se sentaram no sofá de dois lugares, bem próximos.

- Bem, eu... queria pedir desculpas pelo último acontecimento e também por aquela vez...

- Aquela vez? - Indagou Edgar?

Neste momento Júlia havia entendido que ele não se lembrava de antes e por isso estava agindo estranho.

- Você não lembra?

- Se você está falando da sua mãe, aquela senhora dócil, eu realmente não me lembro. - A ironia de Edgar pairava sobre o ar, porém os motivos de tal fala não eram perceptíveis.

- Eu só... queria explicar um pouco... ela me trancava antes de dormir e só abria a porta do quarto depois das oito. Como eu sempre estudei a tarde, perdi as chances de... bem, você sabe... - Envergonhada Júlia tentava fazer Edgar completar a sua história. Já que diante de Sara ele agiu como se não a conhecesse e nem soubesse quem é dona Zuleide.

- Confesso que me recordo de você, e da velha também. Mas eu gostaria que ela tivesse me dado as flores ao invés de ter passado todo aquele tempo me enxotando. Mas não conte para a Sara, usei isso apenas como uma desculpa para falar com você, e queria fazer uma brincadeira com a velha, mas o que me surpreendeu foi ela ter falecido, disso eu não sabia e aí me compliquei todo. Peço desculpas pela cena, mas pensei que você não se lembrasse de mim e por isso fui rápido com a despedida.

- Eu pensei exatamente a mesma coisa, mas por que você queria falar comigo?

O que Júlia não conseguiu processar foi o fato dele ter metido Sara diante daquela situação, porque conhecendo sua mãe a situação ficaria bem feia.

- Eu apenas... eu só... me lembrei da época em que eu passava por aquele caminho e nós conversávamos ali, naquele jardim. Não pude me conter e acabei roubando suas rosas, me desculpe.

- Não se preocupe, você arrancava uma rosa branca quase todos os dias. - Júlia riu e acreditou nas palavras de Edgar.

Eles possuíam uma conexão maior, mas agora ele levaria isso apenas como amizade. Os dois conversaram como nos velhos tempos, falaram o máximo de bobagens possíveis e Júlia se encheu de esperanças. Ela mesma já o entendia e gostaria de repetir aquelas manhãs com ele, mas notou que algo mudara nele e isso ela não conseguia definir. Tudo ocorria bem até que ela ouviu uma voz.

- Você ouviu isso? - Indagou Júlia pedindo silêncio.

- Isso o que?

- Acho que tem alguém lhe chamando.

- Não, não, deve ser algum vizinho. - Edgar começou a agir de uma forma estranha, meio inquieto e acelerou a despedida - Já está anoitecendo, deixe que eu te levo em casa.

Júlia acabou ignorando o barulho e aceitou o pedido de Edgar com uma determinada felicidade. Edgar a seguiu até em casa e os dois sorriram por pelo caminho lembrando das discussões de criança. Essa tarde foi uma das poucos tardes que apagou por um tempo as lembranças ruins da mente de Edgar.

- Então é isso? - Júlia encostou-se no portão de e iniciou uma confissão - Vamos nos despedir assim? Quero dizer... eu sempre tive uns problemas com a minha mãe, coloquei a culpa na velhice, mas agora que ela se foi eu sinto um pouco de falta e ao mesmo tempo uma vontade de voar e conversar com você foi o primeiro passo.

- Sei exatamente do que você está falando, mas gostaria de fazer com que o tempo voltasse para mudar as pessoas, mudar a forma como elas agem, mas que isso é pedir demais.

- O que houve com os seus pais? Eu sempre via o Sr. Jorge bravo.

- Eles viajaram, se foram... foram para alguma cidade do interior, espero que estejam bem felizes. - A ênfase que Edgar deu ao “bem felizes” deixou um tom de ironia, mas Júlia ignorou, apesar de ter notado.

- Sobre a Sara, ela é a sua...

- Não, não, Sara é apenas uma amiga. - Respondeu Edgar.

- Certo, então se quiser umas rosas brancas... - Júlia agora entrava em casa.

- Uma seria suficiente.

Aqueles últimos dias estavam sendo completamente diferentes para Edgar. Primeiro ele encontrou Sara que o tratou bem, depois ele pediu demissão e agora estava conversando com Júlia que voltara a ser a amiga de antes de uma forma bastante especial. Tudo o que ele precisava agora era passar isso para o papel os acontecimentos. Voltou para casa e se jogou aos seus cadernos e, para continuar a escrever sobre Júlia, encontrou as páginas em que começara a escrever sobre o dia com dona Zuleide e leu fielmente em voz alta:

- Dona Zuleide havia acordado naquele dia com o pé direito. Com toda a sua cultura supersticiosa ela olhou para os pés e sorriu, pensando em como o dia seria coberto pela sorte...

 

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