Modo Leitura

Capítulo VII - Júlia

Carlos Hallan   -   21, Agosto de 2016

Edgar possuía algumas vontades, ele guardava dinheiro desde os 18 anos de idade, não era muito, mas somando ao que recolheu com FGTS e o restante, daria para se sustentar por um certo tempo. Com isso ele decidiu parar um pouco e tentar relaxar, entrar em férias mais longas. A verdade é que agora ele sabia que poderia contar essa história para alguém, era só fazer uma visita a Sara e descobrir se ela gostaria de ouvir o que houve.

Eles se conheceram, conversaram no dia seguinte, passaram por uma situação estranha e no terceiro dia Edgar estava desempregado. Depois de conhecer Sara as coisas começaram a andar mais rápido e sair da rotina. Ele pensou em como se aproximar mais, porém decidiu chegar em casa e conversar com seus cadernos sobre essa questão, quem sabe ele não teria uma ideia legal para aquele momento.

...

Na casa de Dona Zuleide, Júlia estava sentada diante do espelho da mãe. Ela teve uma mãe velha e nunca teve a chance de saber a diferença de idades entre sua avó e sua mãe. Seu pai já não morava com ela desde a época em que ela aprendeu a primeira palavra, e acreditava que esse era o motivo do estresse da velha.

Aos sete anos de idade ela havia começado a adotar alguns costumes, um deles era de sentar no banco de cimento do jardim de sua mãe e observar o dia amanhecer, ela tentava descobrir qual a reação das plantas diante do sol. Adorava rosas e nunca perdia a hora, seu organismo já sabia a hora certa de acordar.

Ela se levantava com cuidado, lavava o rosto para retirar qualquer vestígio de sono e andava lentamente até o jardim para não fazer barulho e acordar a sua mãe. Abria a porta com cuidado e sentava com felicidade no banco de cimento. Lá ela passava mais de uma hora só olhando para a mudança das cores no céu e sentindo o silêncio que trazia o cantar dos pássaros para bem dentro de sua mente.

Nesse mesmo horário um menino possuía a mania de acordar bem cedo, ele não queria ver o nascer do sol nem mesmo o canto dos pássaros, embora isso o alegrasse bastante. Ele queria apenas fugir de alguma coisa, e seu corpo já sabia e o acordava amedrontado com sobressaltos sobre pesadelos. Ele ouvia cada barulho que a noite fazia em sua casa e muitas vezes o sono não era tão fiel a sua função. Ele tinha que ir à escola às sete da manhã, mas sempre acordava às 5h30 ou antes e se arrumava rápido para sair, temia que seu pai acordasse antes dele. Se arrumava sozinho e quase sempre saia sem o café da manhã, com sete anos de idade.

Ele seguia pelas ruas sempre um pouco ofegante e olhando para trás temia que alguém o perseguisse. Sempre fazia o mesmo caminho andando rápido e sentava na calçada em frente ao muro de sua escola, ele esperava por mais de uma hora para poder entrar, as vezes nem o segurança havia chegado.

Sua rotina mudou quando ele percebeu que existia alguém acordado naquele horário. No jardim de uma casa com muro baixo havia uma menina que olhava para as flores, para o céu, sorria para os pássaros. Ele não sabia o que aquilo significava, mas sentiu uma vontade tremenda de falar com ela, talvez pela possibilidade de encontrar alguém como ele, sair da solidão. E aos sete anos de idade a criança ainda pensa que pode se movimentar como em desenhos animados e ele foi se escondendo agachado pelo muro baixo até chegar próximo o suficiente para conseguir enxergar o que a menina fazia. 

Seus cabelos loiros e cumpridos eram lindos. Edgar sentiu uma emoção forte e boa pela primeira vez. Ela era mais linda ainda, e sorria inocentemente com uma felicidade que ele jamais tinha visto, nem nele mesmo. Seu coração bateu mais forte, e não sabia o que fazer a impressão que tinha era de que ela fazia uma conexão perfeita com aquelas rosas brancas a sua frente. Ele se mexeu de forma mais bruta e suas sandálias fizeram um barulho ao chão que Júlia havia percebido. Quando ela olhou para o lado só conseguia enxergar metade do rosto de Edgar, e ficou com medo. Ele notou a situação e apareceu:

- Não tenha medo, me desculpe, eu não quis te assustar. - De pé em frente ao portão.

Ela parecia ter entendido que ele não a faria mal, mas não conseguiu perder a vergonha tão facilmente.

- Eu só... achei você bonita, olhando essas rosas... - Edgar falara em pausas, também com vergonha, mas sem se conter.

- Quem é você? - Indagou Júlia com sua voz fininha.

- Eu me chamo Edgar, e qual o seu nome?

- Júlia... Você também gosta de flores?

- Comecei a gostar...

- De quais você mais gosta?

- Das rosas brancas.

E foi assim que eles se conheceram, e durante um ano inteiro Edgar fazia o mesmo caminho e ao invés de esperar na frente da escola ele ficava conversando com Júlia, os dois brincavam e se identificavam com quase tudo. Júlia fugia do mal humor de sua mãe e Edgar do seu pai, eles conseguiram se sentir bem juntos.

Até o dia em que Dona Zuleide acordou mais cedo do que o normal e encontrou Edgar dentro de sua casa enfeitando o cabelo de Júlia com uma rosa branca, ele repetia isso sempre que podia pois achava a perfeição naquela união. A velha começou a gritar com Edgar como se nunca o tivesse visto, mas ela sabia que ele era filho de Jorge.

Ela criou uma tempestade enorme, gritou, humilhou chegou a bater em Edgar com um cabo de vassoura, sendo que o menino não se movia, apenas ouvia em silêncio com sua expressão morta e quase nula que sempre assumia quando se sentia ameaçado. Ele foi expulso da casa dela e Júlia chorando tentava explicar que ele não era mal, ele só estava brincando com ela e etc, mas dona Zuleide não a ouvia, estava com muita raiva.

- Mãe! Ele não fez nada comigo, ele só estava brincando. - Júlia repetia enquanto chorava.

Zuleide empurrou a criança para longe. Sem olhar para ela seguiu em frente e pôs as mãos nos galhos de suas rosas brancas e confirmou suas suspeitas aquele menino imundo arrancou uma de minhas rosas.

Após isso dona Zuleide começou a acordar mais cedo, e sempre que Edgar passava por sua calçada à procura de Júlia ela jogava um balde de água ou qualquer outra coisa que estivesse à sua frente chamando-o de imundo.

De frente ao espelho, essa memória veio à mente de Júlia como um conforto. Lembrou que a preocupação de Zuleide era com as rosas e não com ela, o que a fez lembrar de várias situações em que desejou viver sozinha naquela casa, e agora estava pronta. Mas o que ela não entendeu, foi como Edgar havia se esquecido dela e de Dona Zuleide. A última vez que ela o viu foi quando tinha 13 anos, e quando tentou falar com ele seu pai o puxou com força pelo braço e entrou em uma barbearia. Tudo o que ela queria saber era se ele ainda estava bem.

Decidiu ir perguntar.

 

Próximo Capítulo

 

Leia no Wattpad