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Capítulo VI - Amigos

Carlos Hallan   -   21, Agosto de 2016

Escovar os dentes era algo difícil para Tiago, ele possuía uma deformação dentária que o impedia de limpar todos os cantos da boca. Não conseguia usar o fio dental sem sentir aquele amargo gosto de sangue, neste dia houve mais sangue do que o normal. Ele havia cortado a gengiva com força e o ódio de si mesmo começou a partir desse acontecimento.

- Porra! – Gritou Tiago enquanto andava pela cozinha de sua casa segurando uma toalha na boca.

- O que houve? – Perguntou sua esposa.

- Essa merda de boca está sangrando novamente. – Ele tira a toalha da boca e verifica se o sangue parou de escorrer.

- Use o seu décimo terceiro salário para ir ao dentista e veja se perde esse medo.

- Eu vou, mas o problema é ter o dinheiro para manter isso depois. Você sabe que com o que recebo mal conseguimos pagar esse aluguel. – Tiago agora retira a toalha da boca e se senta à mesa.

O salário de Tiago servia apenas para um propósito: sobreviver. Apesar dele saber que precisa buscar algo melhor, a incerteza de conseguir o deixa com medo de partir para a batalha. Ele se menosprezava.

Depois do seu café-da-manhã ele colocou a marmita na mochila e saiu sem olhar para trás. O ponto de ônibus era bem próximo, mas com o mal humor que o acompanhava nesta manhã, parecia que ele estava andando três vezes mais.

Dobrou a esquerda na esquina da rua de sua casa, bem alí, ao lado do frigorífico. Um rapaz estava encostado na parede do frigorífico e logo que Tiago desejou um bom dia ao José, funcionário do estabelecimento, o rapaz foi em direção a Tiago e com um objetivo estranho sobre a camisa sussurrou:

- Passe a mochila!

- Calma cara, aqui só tem meu almoço. - Mentiu, ele estava com um celular, uma carteira, algumas ferramentas de trabalho e cinquenta reais que guardara para pagar o transporte do mês.

- Não quero saber, passa tudo cara! - O assaltante começou a se exaltar e retirou a arma da camisa e encostou o cano de revolver nas costas de Tiago.

Tiago não pode fazer mais nada, o medo o havia consumido e como uma reação de autodefesa ele entregou a mochila e checou os bolsos para certificar de que havia entregado tudo.

O Assaltante não precisou mencionar uma palavra e seguiu com os pertences para o outro lado da rua. Seus passos apressados demonstravam uma certa preocupação.

- Você está bem? - Perguntou José do frigorífico.

- Estou cara, mas aquele desgraçado levou até minha marmita. - Respondeu Tiago com as mãos na cabeça.

- Quer usar meu telefone para avisar ao seu chefe que não vai hoje?

- Obrigado cara, quero sim.

José entregou o celular a Tiago que já estava a tentar recordar o número de telefone do Sr. Keller. Após três toques o sr. Keller atendeu com um tom arrogante:

- O que você quer?

- Bom dia Sr. Keller, só estou ligando para avisar que acabo de ser assaltado próximo a minha casa e o cara levou tudo até o dinheiro que estava separando para o transporte. - Tiago falava com bastante calma e com a voz baixa, o medo levar um grito do Sr. Keller era maior do que ele.

-  E o que eu tenho a ver com isso? - indagou o Sr. Keller com ainda mais arrogância.

- Lhe aviso, porque acho que terei que faltar se não conseguir o dinheiro a tempo.

- Não sabe andar?

- Mas, Sr. Keller, eu pego dois ônibus para chegar ai, isso levaria várias horas e é muito longe...

- Não me importo com a forma que você chegará aqui, mas venha, a produção não pode parar por causa do assalto de cinquenta reais. - Sem o som da sua voz concluir o caminho Sr. Keller desligou o telefone.

Tiago estava raivoso, em sua mente só estavam os piores palavrões e xingamentos contra o seu chefe. O assaltante passou a ser menos odiado, e a culpa do problema foi jogada, inconscientemente, para o maléfico chefe arrogante.

- O que ele disse? - Perguntou José.

- Aquele merda, não vale nada! Pediu que eu fosse até a pé... Desgraçado.

- Esse pessoal não sabe mesmo como ser gente. Venha aqui, eu te dou o dinheiro pro transporte, depois acertamos quando você puder. - José entrou no frigorífico seguido por Tiago e foi direto ao caixa pegar a grana do empréstimo.

José era um funcionário com bastante autonomia, e tinha certeza que, diferente de Keller, o seu chefe entenderia a situação.

- Muito obrigado cara, fico te devendo essa! - Tiago agora voltava para casa, queria pegar um pouco de comida.

Ao chegar no trabalho ele já não segurava mais o seu ódio e queria se vingar a todo o custo do chefe. Passou por ele sem dar um bom dia, sabia o que fazer e faria só para sentir o gostinho de vingança. Ele entrou como sempre, subiu as escadas e guardar seu almoço, agora improvisado, na geladeira velha.

Voltou correndo para a guilhotina, pegou a prancheta com as ordens de serviço, e procurou a maior remessa, trocou o tamanho com uma caneta preta por cima do que o supervisor havia escrito, e colocou a prancheta no mesmo lugar. Esperou todos começarem o trabalho e persuadiu o supervisor para trocar ele de máquina.

No final do dia, haviam cinco resmas enormes cortadas com um tamanho inútil e todos estavam parados diante das sobras querendo entender o que aconteceu. Tiago, ao notar que os colegas começaram a perceber, ele escondeu a folha com a ordem de serviço alterada. Foi quando, André, o supervisor, notou o erro grotesco que levaria a quase mil reais de prejuízo e explicou para todos que estavam espantados:

- Alguém cortou todas essas resmas com o tamanho completamente diferente do que estava na OS. - Quem cortou tudo isso?

- Eu! - Respondeu Edgar - Era o que estava escrito na ordem de serviço.

Edgar agora sentia um frio na barriga, Tiago permanecia em silêncio e desconfiado. Ninguém conseguia mais encontrar o papel, e já começaram a sofrer antes mesmo de ouvir as palavras cruéis de Keller.

- Tiago, você sabe de alguma coisa? - Perguntou André, se lembrando da solicitação de trocar de máquina logo no início da produção do dia. - Bem no dia que você pede para trocar com Edgar... - Tiago engoliu sua saliva pensando que André estava desconfiando - Que sorte sua, incrível, Deus está lhe ajudando.

- É isso mesmo, só pode ser coisa de Deus.

No momento em que todos se encontravam sem solução, Deus pregou mais uma peça e levou o Keller para área de produção. Ao chegar lá, ele viu uma cena diferente, todas as máquinas desligadas e o pessoal procurando alguma coisa por entre os cantos de todos os lugares.

- Que merda é essa? - Gritou Keller assustando todos de uma única vez. - Por que ninguém está trabalhando?

André como supervisor e gerente de equipe, tomou a frente para explicar a situação, porém sua vontade era de retirar o seu pescoço da forca e com isso ele acaba fazendo algo que não agrada uma pessoa:

- Sr. Keller, nós estamos com um prejuízo de cinco resmas, todas foram cortadas com um tamanho completamente errado, não temos como recuperar. - Ele intensificou o problema com palavras fortes.

- Quem fez isso?

- O Edgar, não sabemos o que houve, mas um erro desses é algo terrível. - André foi categórico ao colocar a culpa em Edgar para se livrar de qualquer coisa. 

Edgar tinha um olhar frio sobre essa situação, ele era mais acostumado com traições do que todos imaginavam. O frio na barriga se fora e ele simplesmente começou a conversar com calma:

- Hoje eu cheguei, e já vi que Tiago estava a persuadir o André para trocar de máquina comigo, como minha voz não faz diferença, André trocou sem me dar ouvidos...

- E você acha que isso justifica? - Keller interrompeu com mais um berro.

- Apenas escute o que tenho a dizer. - Edgar agora mostrava uma confiança que fez Keller se calar. - Foi me entregue uma ordem de serviço com o tamanho escrito em caneta e agora ninguém consegue encontrar o tal papel. Sugiro que converse com o Tiago e verifique se ele sabe o que houve com o papel.

Edgar havia matado a charada, e estava dando todo o caso de bandeja para Keller, que conectou o caso com o assalto do dia.

- Tiago, o que você tem a dizer? - Keller se dirigia a Tiago já com o máximo de certeza possível de quem era culpado.

- Edgar, meu colega, como você pode fazer isso com um pai de família? Eu aqui sempre seu amigo e você me incriminando... colocando a culpa do seu erro em cima de um inocente...

Tiago continuou a proferir palavras que construíam uma situação ruim diante de Edgar, ele chorou, mas chorou com o medo de ser demitido e não com o fato de não ser o culpado. O problema era que todos na sala já estavam a olhar feio para Edgar, e a situação só piorou. Durante o choro ele descreveu seu assalto, seus problemas, pediu a Deus para que lhe ajudasse e mesmo com nenhuma evidência e nada que comprovasse o feito, todos culparam Edgar que via a cena completamente calado - por ser um bom ouvinte e não por ser o culpado.

Sr. Keller o chamou em seu escritório e destilou todo o seu veneno. Humilhou com todas as forças o homem simples que o olhava com pena.

- Espero que não se arrependa do que está dizendo. - Ameaçou Edgar.

- Você está me ameaçando? Um nada me ameaçando? Você é um merda e não passará disso. Vou descontar todo o prejuízo do seu salário, e você vai ter que trabalhar mais só para aprender a respeitar os seus colegas...

E ele continuou e continuou, mas Edgar, apesar de bom ouvinte, possuía um limite para sua paciência e este limite havia sido ultrapassado. Edgar se levantou com um ódio único, olhou ferozmente para Keller, que não tinha a intenção de o demitir, e preservou o silêncio iniciado pelo seu olhar. Até que deu um soco com o máximo de sua força na mesa de Keller que permanecia em silêncio, desta vez humilhado e amedrontado.

- Espero que não se arrependa do que disse. - Disse Edgar baixinho. - Eu me demito, vou esperar lá fora e quero meu dinheiro.

- Tudo bem - Respondeu Keller como uma criança que acabara de tomar uma bronca do pai e ver uma mão gigante ser levantada contra ela.

Edgar voltou para a área de produção onde todos consolavam Tiago por ser um pai de família devoto a Deus que iria ser prejudicado pelo cara estranho. Ele andou sem proferir uma palavra, pegou suas coisas e retornou, ao olhar para Tiago sentiu pena, sentiu pena de todos e percebeu uma pontinha de um papel saindo do bolso esquerdo de Tiago...

- Olha o bolso dele! - Edgar apontou para o bolso certo e continuou andando. Até que ouviu André confirmando que era a tal ordem de serviço escondida, mas não quis voltar tomaria um rumo diferente em sua vida. Recebeu todo o dinheiro do Sr. Keller e se foi ouvindo alguns pedidos de desculpas que ele mesmo ignorou por completo.

Ele nunca havia andando por aquela rua no período da tarde, ou cedo demais ou tarde demais. Na parte da tarde existiam muitas pessoas perambulando por ali, e uma delas fez Edgar se lembrar de alguém. Uma pessoa que um dia disse preserve seus amigos. Aquela expressão soou bem interessante naquele momento.

 

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