Modo Leitura

Uma viagem qualquer

Carlos Hallan   -   19, Julho de 2017

Pensei que talvez fosse necessário escrever algo a mais sobre minha vida e deixar um pouco de falar de problemas e dúvidas. Mas provavelmente, mesmo que eu tente, não conseguirei evitar uma análise por onde passar. Pois bem, um relato mais tranquilo sobre a observação de coisas quaisquer se segue pelos próximos parágrafos.

Primeiro tive de presenciar e pagar pelos erros de outra pessoa como sempre, mas como disse vou tentar pular as partes que fazem dessa história algo ruim. Digamos, então, que eu simplesmente tive de esperar mais do que um dia para obter o resultado que eu esperava por uma falta de coragem de um alguém. Andei pela cidade inteira a procura de um banco. Não é que eu não saiba me localizar na cidade em que nasci, mas era um daqueles dias em que o seu Deus havia nos presenteado com um pequeno dilúvio de mais de 12h de água.

Em alguns locais da cidade não parecia um dilúvio, parecia as ações de Moisés abrindo o “rio vermelho” que circunda a cidade. Era tanta água que tinha gente achando que a COMPESA havia atirado para cima uma bomba atômica feita exclusivamente de H2O. O que essas pessoas esqueceram de perguntar foi sobre a quantidade de água que estava dentro dessa bomba, e o porquê de ela cair continuamente em gotas pesadas e ácidas. Um dia como esse, ensopado, trazia ventos fortes, e bem fortes. Nossa cidade, apesar de viver tropicalmente todos os anos desde a sua fundação, não está preparada para receber uma chuvinha qualquer. A palavra tempestade significa algo pior que “catástrofe”.

E nisso uma bonita e enorme árvore caiu sobre a terra e arrancou de seu funcionamento um dos postes da cidade, perfeitamente fincados ao solo. Depois que o canudo de plástico que chamam de poste caiu, o centro da cidade ficou sem energia elétrica e os bancos não poderiam me dar o dinheiro. Se eu tentasse retirar o meu dinheiro com os caixas eletrônicos desligados, certamente interpretariam como roubo – pessoas insensíveis. Para a minha sorte eu estava de Uber (nem tanta sorte assim), o que me fez triste foi ter de ver o meu salário se esvaindo por entre os minutos de viagem. Encontramos um banco que funcionou claramente. Na porta, um material radioativo resplandecia sua luz marrom de ferrugem misturada aos resquícios de uma pintura verde que ali só existia em alguns pequenos lugares. A bicicleta estava em ruínas e um único cara retirava dinheiro do caixa eletrônico. Ele foi o homem da esperança. O amigo desceu do Uber e retirou o dinheiro necessário para completar a viagem.

No destino o meu salário não se foi por completo, mas o valor doeu bastante. Cheguei na casa de outro amigo, no que posso realmente chamar de hora errada. Tinha marcado uma carona longa até uma cidade distante, e ao chegar para esperar a tal carona, o amigo ainda estava de mudança. Tive de ajudar. O detalhe dessa mudança explicaria a perda de peso rápida. O amigo estava saindo de um apartamento no terceiro andar de um prédio, para morar em um sítio à 260km de distância. Eu iria na carona, após ajudar a terminar de carregar o caminhão.

Mas eu fui. Era uma viagem de negócios. Mas acabou sendo mais um descanso do que qualquer coisa. Tirando o fato de que morei numa pousada nos últimos dias e comi pão com mortadela por vários almoços. Mas isso nós podemos ignorar, vamos fingir que sou um CEO de uma empresa multinacional e que não preciso de mortadela no almoço, mas sim de uma outra comida rica qualquer. Vamos imaginar que um cágado não me perseguiu desesperadamente em uma correria frenética – que por sinal foi motivo de riso por um tempo, fiquei a achar que meu sex appeal animal estava muito acentuado, tendo em vista que durante a vida compartilhei momentos sexuais com vários cachorros da vizinhança e minha perna. Mas o cágado superou minhas expectativas.

Vamos encerrar por aqui, porque as coisas estão ficando longas. Digo apenas que o amigo que me recebeu em sua casa, ultrapassou os limites da camaradagem e agradeço pela ajuda. E que as suas tias fazem uma boa comida. E só.