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A vida é mais curta do que já dizem por aí

Carlos Hallan   -   15, Agosto de 2017

Alguns dizem que a vida é difícil e por muito tempo eu tive o prazer de retrucar essa frase com uma outra inexperiente “A vida não é difícil, as pessoas que a deixam assim”. E mesmo que alguns tipos de acontecimentos possam exclamar o errôneo sentido das duas frases, eu ainda gostaria de me posicionar em qualquer um dos lados.

Vivi uma vida considerada difícil. Considerada por mim mesmo em meio a subjetividade de minhas observações. Não menos sofrida que a de alguns, mas também com seus privilégios. Criei uma lista de coisas a fazer quando conquistasse meu objetivo final, quando tivesse algo para mostrar para aqueles que me incentivaram e ajudaram nessa caminhada que, apesar de completar nove anos, ainda é só o começo.

Na lista eu guardei vontades fúteis, como assistir a um show de Chris Cornell, o cantor predileto que faleceu a pouco. Mas também guardei vontades nobres, como aquelas em que eu me vi esperando o dia certo para voltar e agradecer a todos os que me fizeram evoluir. Eu queria debater com aquelas incríveis pessoas que tomei como exemplo, e demonstrar o que me tornei (e me tornarei). Gostaria de poder agradecer pessoalmente com algum gesto inédito que demonstrasse uma gratidão inumana, mas infelizmente me vi tendo que repensar sobre a lista que me pareceu pretensiosa. Acredito não ter levado em consideração o tempo como deveria, e não imaginei que tivesse que riscar os itens mais emocionantes e aguardados. Nessa semana tive o desprazer de enxugar as lágrimas do rosto ao receber uma notícia que, incrivelmente, me abalou.

Eu comecei a entrar na área da educação com alguns incentivadores indiretos. Escrevi muitas linhas de uma metodologia inacabada que deveria ser apresentada aos que a inspiraram. Usei como exemplo de explicação as aulas de um professor interessantíssimo, que amava a profissão de tal modo a influenciar involuntariamente os alunos a seguirem a mesma. Apliquei as ideias em salas de aulas, repliquei por vezes a sua postura e tentei ser parecido em conhecimento, com diálogos e diferentes métodos de atividades.

O professor Jonas (como era conhecido na época do último ano do meu ensino fundamental) me mostrou a verdadeira postura de um professor. Entendi, com suas aulas, que era aquele tipo de profissional que eu gostaria de me tornar. Nos tempos em que minhas opiniões estavam começando a se tornarem mais concretas, ouvi minha mãe perguntando os motivos de eu estar indo para a escola, mesmo estando em período de greve. Tive de responder com sinceridade, sem notar a importância que eu tinha naquele momento “vou assistir aula do professor Jonas”. Ele realmente se importava.

Me vi escrevendo minhas primeiras linhas de opinião com a ajuda dele. E quando a incoerência surgia em alguma frase ele me incentivava a escrever mais. Ele fazia com que todos se sentissem importantes. O grito no corredor para os baderneiros não era de pavor a diretora Elza, mas de respeito ao professor Jonas “Lá vem Jonas!”. Eu não tinha medo de receber uma bronca desse professor, mas tinha medo de decepcioná-lo, pois a forma adulta como fui tratado havia me transformado.

O professor, cujo nome deveria ser excelência, estava na minha lista de pessoas a quem eu deveria agradecer. Eu queria ter tido a chance de mostrar minhas observações, e o que ele havia inspirado, debater sobre alguns pontos e pedir a sua ajuda para prosseguir com menos erros. Mas infelizmente, tive de retomar a discussão interna sobre o tempo. Aquele querido mestre, faleceu, deixando marcas por onde passou.

Lembro-me de viajar para prestar vestibular para uma faculdade, apenas porque meu professor havia me mostrado como aquele assunto era incrível. E não estive sozinho, porque alguns amigos da época também receberam essa forte influência. O fato é que hoje entendo que sou um alguém muito melhor e mais exigente, esperando que muitas pessoas possam ser como ele, que façam seu trabalho com excelência, para conseguir transformar o mundo que ele conseguiu marcar, por uma educação que nos ensine a pensar e não a obedecer.

Mas ainda consegui agradecer, não com a intensidade que gostaria, mas ainda consegui agradecer…

 

Se o 'céu' existir, com certeza é lá que a sua poltrona se fixará.