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A Sabedoria

Carlos Hallan   -   28, Novembro de 2017

Um sobressalto me acordou sem motivos, as lembranças confusas de um pesadelo não curtiam os olhos fechados. Ouvi da consciência que tinha de levantar, e aí fui.

No banho cansativo um som me espantou, cessei as águas e agucei os ouvidos. Era o som repetitivo da campainha. Me apressei para a toalha e me enrolei ainda molhado. Uma gota de felicidade crescia por entre o cérebro, eu estava com visitas. Olhei pela janela e nada pude enxergar, até que perguntei qual seria o assunto. A resposta vazia parecia-me mais gélida do que a morte. Deve ser um moleque espertinho brincando comigo, pensei. Mas ainda continuei a olhar pelo olho mágico aguardando uma verdade feliz.

Notei que uma pata de um animal se mexia rapidamente até a campainha.

- Quem é? – Indaguei.

O silêncio não me foi estranho. Vesti-me um pijama e sai para ver que animal seria capaz de me perturbar uma hora dessas. Assustei-me ao analisar o bicho que estava em minha frente, uma raposa vermelha que me olhava mansa, com carinho. Nesse momento meu cérebro imaginou diversas possibilidades, mas a mais lógica seria loucura.

Uma raposa batia em minha porta e, depois de alguns tapas na cara, entendi que não era um sonho, estava ali aquele animal viera para o Brasil ilegalmente, e ainda por cima estava tocando minha campainha. Notei que ela tinha uma identificação em sua coleira, lá estava escrito “Sabedoria”, além de contrabandeada ilegalmente servia como bicho de estimação. Como entender isso? Pensei duas vezes no que fazer, mas o costume da cultura do meu país era resistir a revolta e seguir em frente, eu apenas levaria a revolta em frases mediadoras de amizades.

Voltei a me isolar em minha casa, ignorando a droga do animal. Mas a campainha voltou a tocar eu me vi raivosamente questionando meus princípios de sanidade:

- O que você quer? – Gritei.

- Me deixe entrar! – Respondeu o animal do inimigo

Dei um grito de espanto “Puta que pariu”... Previ minha loucura e me imaginei tentando fugir de uma camisa de força lutando contra dois bombados vestidos de branco. Mas insisti na derrota mental:

- O que?

- Me deixe entrar!

Ela respondeu mais uma vez. Seria um Deus me pregando uma peça, seria uma fábula real ou meu café vieram banhado em uma solução de álcool puro? Se fosse um Deus eu deveria responder à altura, nesse caso, pensei por mais alguns segundos e comecei um diálogo ignorando sua aparência.

- Não sei do que se trata, mas vejo que se chama Sabedoria, mas não lembro de você a representar historicamente.

- Eu sou eu, deixe-me entrar.

- O que você quer de mim? – Perguntei atônito.

- O que acha que a sabedoria traria para você?

- Não me responda com uma pergunta.

- A sabedoria não vem de dentro? – Disse a raposa, me esclarecendo a loucura.

- E se eu não a deixar entrar?

- Não saberá porque vim. – Atrevida, respondeu a raposa.

- Por que eu abriria a porta?

- Sabedoria também é curiosidade.

- Você é algum tipo de Deus?

- Interprete minha presença. – Respondeu o animal.

- Não posso confiar numa raposa.

- Pois então mate-me.

- Não tente me trazer a culpa.

- A culpa vem com a sabedoria.

- Não a renove, já estou farto de saber. – Respondi raivosamente.

- Será que realmente sabes?

- Já sei que nada sei, não me venha com dúvidas.

- Isso também vem com a sabedoria.

- Então não a quero mais.

- Deixe-me entrar.

- Poderia ser uma coruja, porque não uma coruja?

- Cada cultura tem a representação que merece.