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Um ateu na selva cristã

Carlos Hallan   -   20, Junho de 2017

Um adolescente calmo por ser reprimido, um pensador escondido, fora vítima de vitimismo, das lágrimas de medo. Teve uma vida pacata, ao qual se viu viver em uma selva, cujo grupo predatório o via como presa, apesar de suas semelhanças.

– Por que você está chorando? – perguntou o jovem à sua mãe que parecia triste.

– Eu encontrei Jesus. - respondeu timidamente a mãe.

– Como assim?

– Você só saberá quando aceitá-lo.

Induzido a curiosidade, a pena que o jovem sentiu daquelas palavras​, pareceu o consumir por completo. Mas ao mesmo tempo aquilo soava como encenação, afinal ninguém falava com aquele tom nos arredores. Pelo contrário, as palavras eram rígidas e a inocência era engolida pela grosseira ignorância, que nem dava espaço para a sensibilidade.

Quando alguém se via de modo sensível estava doente. Só podia estar doente. As desculpas teriam que se tornar breves testemunhos para ninguém descobrir as lágrimas. Tinha de ser algo mágico que inspirasse, algo ainda maior que explicasse um controle além do homem, afinal, todos eles sabiam se controlar muito bem, nunca erravam, a culpa sempre foi do sobrenatural.

– Mas, você está chorando? Por quê? – inconformado, indagou o jovem mas uma vez.

– Emoção, meu filho, emoção.

Comovido, o jovem tinha um problema, um defeito grave, ele era sensível na selva dos grosseiros. Ele não precisava culpar alguém por nada. Ele chorava quando tinha de chorar, mas não falava seus motivos. Ele quis agradar, foi a um culto religioso, olhou para o orgulho nos olhos dos seus pais ao vislumbrar a sua irmã fingir felicidade espiritual com intenções puramente sociais. Ele queria ser orgulho também. Ele queria agradar também, pois seu jeito sensível já era distante, sua introversão silenciosa, e sua música refletia sua personalidade e não buscava a moda da atualidade local.

– Você deverá mudar a sua vida, nascer como um novo homem, nascer novamente, aqui, agora. Quem aceita Jesus levante as mãos. – completou um pastor.

O jovem pensou duas vezes, três vezes. Olhou para o lado e ouviu um suspiro suplicante:

– Por favor, faça isso por mim.

Sua mãe sabia o que queria. Ela queria poder dizer para todos que agora tinha uma família correta, uma família cristã. Pois então o jovem decidiu listar exigências e perguntou se teria de parar de contemplar o seu rock e sua opera. A resposta foi de imediato:

– Você não precisa parar de ouvir suas músicas, existem muitos crentes que escutam.

O jovem teve mais certeza dos interesses sociais e fúteis de sua mãe, mas ainda assim, pela falta de confiança que tinha em si mesmo, decidiu prosseguir, afinal ele poderia estar errado. Levantou as mãos com um pouco de medo, sem saber se iria se arrepender pela timidez. Logo foi convidado a fazer parte da vitrine das novas ovelhas. E diante da manipulação de palavras proferidas pelo bravo pastor, ele foi induzido a dizer sim em frente a uma enorme plateia emocionada pela música e pelos efeitos sonoros do templo que ecoavam sensações de libertação. Nesse momento o jovem sabia que estava fazendo algo que não queria fazer, mas acreditou que aquilo poderia melhorar a sua introversão, e portanto prosseguiu, afinal ele poderia estar errado.

Na saída do local teve de explicar mais uma vez que não iria abandonar seus costumes e suas músicas, para que ficasse bem claro, um tipo de refúgio contra a repressão que viria a seguir. Durante os próximos dias ele pregou, leu, falou de Deus, se perguntou se estava fazendo algo correto, mas não deu ouvidos a sua opinião. Isso porque a fama cristã trazia a facilidade de inclusão em qualquer grupo. As pessoas enxergavam uma auréola em sua cabeca, que emanava uma força espiritual instantânea e inesgotável. Isso era equivalente a uma ética perfeita e uma moral inquebrável.

Essa imagem era boa. Ele não teria que se explicar, era só dizer que Deus estava a frente quando ele não tinha resposta alguma. Isso funcionava bem. Mas o defeito do jovem era a sua sensibilidade, quando ao notar que não sabia orar, nem muito menos pedir, ele sabia que algo estava errado. Buscou por muito tempo um conhecimento ritualístico que pudesse entregá-lo aos sons divinos. Mas soube apenas que estava dentro de um silêncio ainda mais profundo do que antes, pois agora ele procurava algo que destruísse o breu e o frio da solidão.

Descobriu e observou que ele próprio era um mentiroso. Não conseguia encontrar Deus, não conseguia encontrar palavras de conforto, não conseguia encontrar verdade. Começou a observar, notou que todos mentiam da mesma forma. Notou que todos estavam fingindo gostar de um ser que não conheciam pelo mesmo valor social.

O jovem tentou perguntar ao pastor das ovelhas perdidas. Obteve respostas ambíguas e fúteis. Notou que ninguém estava se importando em questionar. Notou que seu ato de questionar era algo insano para eles mesmos. E por buscar as respostas, notou que começou a ser excluído. Isso foi o sinal que ele precisava, o sinal não sobrenatural. Saiu da religião e buscou mais respostas. Descobriu que poderia acreditar em Deus ainda como um deísta. Um conceito de deus pessoal menos degradante a mente.

Notou depois que o Deus que buscava era um ser maior, um cosmos transcendente ao homem, além do pensamento e da compreensão. Mas logo viu que o que chamava de Deus tinha outros nomes e poderia ser interpretado sem a existência de uma criação inteligente nem mesmo o culpado pelos sucessos alheios.

Descobriu que não acreditava em Deus. Afinal não fazia mais sentido acreditar. Fazia sentido buscar respostas, questionar. Não fazia mais sentido seguir passos, então começou a criar passos. Sintetizar ideias e ser o seu próprio ser. O jovem se tornou ateu. Mas a sua família suplicante, chorosa e frágil, ainda se banhava no leito seco do homem da manjedoura. E não podia sequer surgir com uma ideia contrária ou filosoficamente pensante. Isso era inaceitável, repugnante. O correto e concreto é a prisão mental da leitura de um único livro que só é bom porque ele mesmo diz que é.

O jovem pensou várias e várias vezes. Ficou em silêncio por diversas conversas, diversos cultos e rituais. Se calou quanto as críticas, se calou diante de pensamentos preconceituosos. Ouviu várias pessoas dizendo:

– O problema desse país é a falta de Deus no coração.

– O assassino é ateu.

– A economia está a cair porque os ateus estão dominando.

– O mundo segue ruim porque o satanás usa os ateus.

– Eu sinto pena de você, que Deus tenha misericórdia e não te machuque tanto.

O jovem se muniu de conhecimento. Criou o seu próprio valor que iria ignorar por completo suas convicções religiosas. Criou sua importância e fez com que os preconceituosos se calassem para pedir a sua ajuda. E hoje sabe que a sua ética e sua moral não dependem das ações de um ser superior. Que suas pernas andam sozinhas a medida em que ele escolhe seguir em frente.

Hoje o jovem não irá mais se calar em momento algum. E o respeito terá de se contentar com os questionamentos. Se alguém chorar para o chantagear emocionalmente, saberá que ouvirá uma resposta um tanto dolorosa para fazer com que o choro se esvaia ou para fazer com que ele seja cheio de lágrimas verdadeiras. Hoje o jovem ainda é jovem, pensando como adulto, agindo como um velho nas questões sérias, e escreve essas palavras na tentativa de encontrar um alguém com seus pensamentos e que possa tomar a coragem de dizer o que quer ser, e o que deve ser para o mundo.

Não tenha medo. A ignorância pode maltratar, mas só irá matar aqueles que dela fazem uso constante.