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O Caso Lopes: Capítulo 2 - Porcos

Carlos Hallan   -   01, Maio de 2017

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O que dizer de um homem comum? Para cada pessoa uma interpretação diferente. Para sociólogos em uma longa pesquisa de campo, um homem nada mais é do que mais um no enxame social. Para um filósofo, a definição é mais ampla e atinge cálculos mentais referentes ao termo “se”. Para um psicólogo, o homem parece ser o que ele é ou quer ser, diferente do filósofo o olhar parece seguir por um ângulo específico a uma pessoa específica. Para um astrônomo o homem comum, assim como o não comum, é um mísero átomo referente a imensidão do multiverso. Para os teístas o homem não passa de um escravo mortal, rude e com propósitos fúteis.  Mas na verdade, o que o define como comum é relativo, e até mesmo em seu âmago de consciência não se pode definir em um único ponto.

Jorge, era um homem comum. Pelo menos para os olhares científicos e questionadores. Para ele, sua vida não valia o conceito, não valia a questão, não valia nenhuma resposta. Jorge, não se considerava um homem comum, acreditava nas perfurantes palavras de seu pai e conseguia se incluir em um nível abaixo de zero. No entanto, havia algo em que ele era bom. Algo que ninguém achava ideal, além do seu sucesso, que demonstrava a sua proeza magnífica.

Tudo começou quando um lindo homem decidiu conquistar a mais linda mulher daquela festa.

– Eu te conheço de algum lugar? – Perguntou Marcos.

– Não, mas parece que pretende conhecer. – Respondeu a moça.

– Prazer, meu nome é Marcos. Por que não nos conhecemos antes?

– Oi, meu nome é Ruth. – Ela riu um pouco – Isso eu não sei, mas sei que nossos pais eram cristãos.

– Os nomes bíblicos? Acho que eles tinham algum tipo de ligação esquisita com esse Deus.

– O único Deus! – Afirmou Ruth.

– Sim, foi isso que eu quis dizer.

– Pensei que estivesse tentando ser legal rejeitando Deus em uma piada sem graça.

– Na verdade não, apenas me expressei mal. – Marcos estava suando e se enrolando com as palavras, mas a sua personalidade popular o convencia de que podia escapar de qualquer coisa.

– Tudo bem, vou fingir que acredito. E então, o que quer de mim?

– Nada. Apenas... um beijo, talvez.

– Assim tão depressa? – Ruth sorriu.

– Eu posso esperar até amanhã, se você quiser. – Marcos aplicou o seu olhar penetrante e alisou os cabelos confiante.

– Não gosto de esperar... – Ruth o atacou em um solavanco, beijou como se aquele momento estivesse atingindo o auge de sua excitação.

Em poucas horas os dois já estavam a transar ferozmente sem preservativos. Os gemidos altos ecoavam pelo quarto e a porta não parecia estar trancada. Ruth estava completamente sóbria, mas Marcos havia bebido algumas doses de Whisky. O ato terminou com um orgasmo solitário que originou em um comportamento raivoso em Ruth.

– Que droga! – Gritou ofegante.

– Me desculpe... ufa... foi ótimo!

– Imbecil! – Ruth estava completamente fora de si, vestiu-se e se mandou para casa. Assim, tão rápido.

Os apaixonados não se viram mais depois daquela noite. Não precisava, as intenções de Marcos eram aquelas claramente expressas nas duas primeiras horas de companheirismo. Ruth também não estava interessada em romances duradouros, mas a sua consciência pesava por outro lado. Após alguns meses ela descobriu que estava grávida, não tinha o que fazer, para onde ir e era “adolescente demais para criar um pirralho chorão”. Foi com essas palavras que Ruth convenceu um amigo a cometer um aborto ilegal.

– Você tem que me ajudar.

– Não posso. Você ficou maluca?

– Eu não posso estragar a minha vida!

– E o que eu ganho com isso?

– Você que escolhe. – Disse Ruth, sensualmente mudando o tom de voz.

– Tudo bem, mas ninguém pode saber, está me ouvindo?

E foi assim que a primeira tentativa de aborto fracassou. Quando o bebê nasceu foi rejeitado prontamente. Ruth o entregou ao pai forçadamente e sumiu pela noite tempestuosa. O pai, um garoto qualquer que se fingia de homem, não tinha ninguém por ele. Carregou o menino de um lado para outro sem conseguir conter o choro. Não tinha comida, não tinha dinheiro, não tinha nem como pedir socorro, pois a tempestade havia parado a cidade. A sua sorte fora ter encontrado em sua mochila alguns doces conservados. O recém-nascido começara sua jornada pela sobrevivência.

Aos três anos de idade, o menino não sabia falar corretamente. Não tinha estímulos e só tinha contado com pessoas carinhosas quando era levado às pressas para uma emergência infantil em momentos de quase morte. O pai, negligente, não dava importância aos cuidados recomendados, e só sentia preocupação ao ver que havia passado dos limites, era quando o seu lado humano falava mais alto.

Aos 15 anos de idade, a criança cuidava da casa. Não sabia o que era amor, carinho, perdão, e nenhum dos sentimentos que, mesmo que superficiais, conceituam um bom homem. Ele sabia o que significava dor, e possuía uma resistência incrível quanto a isso. Sua maior promessa fora de nunca mais derramar uma lágrima por “aquele monstro sarnento”. O garoto sabia o que significava não ser ninguém, mal conseguia estudar e não tinha boa convicção em leitura. Suas notas na escola eram ruins e de tão ruins ele não frequentava mais o local.

Cresceu sem saber o que seria de seu futuro, na verdade, não queria ter um futuro. Sonhava em ser feliz ao presenciar o dia fúnebre de sua morte em uma viagem astral que o permitiria se livrar do monstro ao qual tinha de chamar de pai. Um certo dia, o tédio deixou de ser tédio, o garoto conseguiu algo para fazer, começou a sair durante a noite, enquanto todos dormiam. Treinava brincadeiras inspiradas em animações de TV, se sentia especial quando a noite o acolhia. Sua paixão era as estrelas, nada se igualava a sensação aconchegante de observá-las sob o frio da noite.

Rapidamente começou a conhecer a cidade. Memorizava cada parte em sua cabeça, como se a sua mente se encaixasse ali. Como se a planta já estivesse desenhada e esperasse um pouco de luz para retirar o desfoque. Ele começou a se sentir mais livre e descobriu que poderia viver longe do malfeitor. Mas o medo ainda o perseguia como mais um inimigo.

– Jorge, seu moleque desgraçado. O que faz na rua? – Gritou Marcos, ao ver o seu filho chegando em casa.

Jorge não respondeu. Não podia, só conseguia sentir dores familiares se projetarem em suas costas ao olhar para as mãos de seu pai. Marcos segurava um cinturão com uma enorme fivela dourada na ponta do pendulo.

– Venha cá seu merda!

Jorge correu para o lado contrário. Um segundo medo o consumiu, preciso dizer para que não haja dúvida, pois não houve coragem, tudo aconteceu debaixo dos olhos vermelhos e inchados de Jorge, que molhavam com pequenas gotas salgadas o caminho percorrido. Ele simplesmente não sabia mais o que fazer, e correr era a única munição que lhe restava. À alguns metros de distância, sua cabeça se movia para checar a aproximação do malfeitor, mas para a sua sorte, Marcos havia desistido em poucos minutos.

E a partir daí a vida de Jorge tomou um rumo completamente solitária. Nenhum dormitório poderia replicar a dureza do sono sobre aquelas calçadas. Jorge teve de aprender a viver como um morador de rua, tinha medo de tudo, tinha medo de qualquer pessoa que pudesse se aproximar. Em meio a sua vivência noturna, alguns moleques o espancaram enquanto dormia aumentando ainda mais a sua ira sobre os humanos semelhantes.

Em pouco tempo, Jorge aprendera que a humanidade tinha seus dias contados, tinha de ter. Ele não conseguia pensar em punições mais severas para todos os que ultrapassaram o seu espaço de direito, que por sinal, Jorge não sabia que possuía direitos, nem o direito de viver. Em suas caminhadas trêmulas e cambaleantes, ele se perguntava os motivos de estar resistindo e tentando sobreviver. Nada de concreto surgia para justificar tal esforço, nem mesmo um alguém para se apaixonar. Com isso em mente, ele desistiu de observar as estrelas e passou a vislumbrar a escuridão. Jorge tornou-se um ladrão profissional.

Aqui em nosso país ser ladrão é profissão. Espero que você busque o momento histórico em que eu escrevo essas palavras, saberá do que estou falando. Não falo de uma revolta sem fundamentos, vejamos a vida de Jorge como exemplo. O ciclo vicioso de degradação social continua a girar. A pedagogia do amor empregada pela população quanto ao adolescente transformara-o em um poço sem fundo de rancor. Violência fora a sua palavra preferida durante um bom tempo.

Roubou homens ricos, mulheres pobres, adolescentes babacas, mas nunca chegou a encostar a mão em nenhuma criança. Claro que isso jamais irá justificar os erros que ele começou a repetir, mas me fez entender que o pensamento de identificação ainda existia em sua mente. Um dia, ele chegou a salvar uma criança de um atropelamento, se machucou como um porco abatido estirado à mesa do açougueiro. Pode ouvir a criança o agradecer sob o espanto do susto, mas quando os pais chegaram perto, as palavras eram tão perfurantes quanto as de seu pai, pareciam doer mais do que seus machucados, a rejeição veio no lugar do reconhecimento por motivos preconceituosos. Nesse dia Jorge quebrou sua promessa e chorou ao chão classificando aqueles pais assim como fez com o seu.