Sobre o medo

O homem gritava com sua voz grave palavras chulas e repressoras. Elas viajavam com um peso desumano e atingiam os envolvidos que trepidavam o corpo involuntariamente. O homem não queria observar o sentimento que destruía aquele ambiente, para ele o controle absoluto da situação era prazeroso, nada melhor do que expor a sua loucura sobre os ombros de inocentes – assim ele pensava.

Os envolvidos estavam prontos para o pior, aguardavam sem calma o momento em que as palavras se transformariam em dores físicas e hematomas visíveis. O homem ainda não estava preocupado com os sentimentos dos envolvidos, apenas expressava sua ira sobre todos.

– Pare, por favor. – Gritou um dos envolvidos. – Nós não fizemos nada.

O homem não conseguia ouvir nada, seu ódio não tinha motivos ligados aos envolvidos, ele não precisava disso. A sua insegurança como ser humano, o seu fracasso profissional e os problemas em seu relacionamento, esses poderiam ser os motivos reais para promover a dor em outras pessoas. As mãos trêmulas dos envolvidos, se moviam para simular uma proteção contra o rosto, mas de nada adiantava, pois o punho serrado do homem parecia muito maior do que o normal e o impacto ainda machucava e ameaçava manchar.

– Por que faz isso conosco? – Indagou o primeiro atingido.

Nenhuma explicação aliviaria o sentimento negro que dominava os envolvidos, como se as possíveis cicatrizes futuras já estivessem doendo. O sentimento aumentava sempre que fixavam os olhos no sorriso insano do malfeitor, ele parecia gostar do que estava fazendo sem ressentimentos, sem remorso, sem amor, sem lembranças… Duas crianças perante a crueldade da vida, derramavam lágrimas de dúvidas por entre as pancadas recebidas. O pai que parecia estar contente com a punição, já estava começando a saciar o seu ódio pouco a pouco. E as crianças, ainda com os corpos trêmulos, esperavam a redenção equivalente ao castigo, clamando pelo entendimento do perdão, palavra expressa por seus olhos confusos.

– O que você está fazendo? – Perguntou a mãe se aproximando da cena.

O homem, com todo o seu espírito paterno, explicou que para que eles conseguissem ser pessoas melhores, as pancadas teriam que corrigir os seus erros equivalentes. A mulher olhou para o tom violeta do rosto de uma das crianças e questionou o motivo daquela agressão. O pai logo explicou o ato ilícito cometido pelos dois, eles não queriam dividir o playstation, portanto os meninos precisariam do amor severo e agressivo para aprender o significado da partilha. A mulher com toda a sua sanidade duvidosa, aceitou a situação e apenas deu as costas para o ocorrido, acreditando que a punição se tornara clara e equivalente.

– Nós prometemos que vamos dividir. – disseram as crianças em coro.

O homem entendeu a situação e parou com o castigo, aparentemente eles teriam aprendido a lição. E uma das crianças que compartilhava a mesma sanidade duvidosa dos pais, se sentiu aliviado por completo expressando sua gratidão ao divido pelo sentimento bom que o consumira: 

– Graças a Deus que ele parou…