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Humanos esquisitos

Carlos Hallan   -   30/07/2017

O dia de trabalho parecia normal na medida do possível. Nada de extraordinário. Apenas o cansaço fazia parte da rotina, e a noite estava bem tranquila para reprimí-lo aos poucos. Eu andava ao lado dos amigos normalmente. A conversa era interessante, algumas ideias novas estavam surgindo para um novo serviço que negociávamos.

Era noite, como já mencionei, e portanto todos estavam indo para suas casas. Como trabalhávamos perto de casa, seguiamos andando por uma praça. Sempre esperávamos o final de uma conversa na esquina da praça, antes de nos despedirmos. Nesta noite, não foi diferente. Continuamos a escolher novas cores e nomes para o novo projeto enquanto contávamos piadas de descontração no meio das frases inteligentes.

Eu era um cara que adorava observar as pessoas. O que me deixava tranquilo era sair por ai olhando o comportamento de cada um tentando decifrar. Alí estava eu, em silêncio no final, aguardando todos concluírem suas falas. Comecei a reparar nas pessoas, como de costume, mas ali, na praça uma festinha estava sendo promovida. Olhando da esquina parecia um aniversário de alguém. Tendas brancas estavam erguidas e pessoas bebiam e conversavam naturalmente como em bares no meio da rua. Algumas crianças me chamaram a atenção, pois ao lado da praça, ao lado da festa, tinha um supermercado de bairro, daqueles que o primeiro andar é a casa da família dona do mercado. Algumas fitas rosas saiam de dentro do mercado, como se estivessem caindo do telhado. Agora eu me lembro, eram exatamente seis fitas, uma para cada criança.

A imagem era clara. As seis crianças estavam de pé segurando as fitas como em uma espécie de brincadeira ritualistica, onde você precisa resistir algum tempo para ganhar uma recomenpensa pequena. Mas eu não costumava ficar tão pensativo quanto aquele tipo de comportamento, porém a noite não estava normal, uma intuição incomum me dizia pra tomar cuidado.

Meus amigos continuaram a conversar. E um novo tema surgiu, o que me deixou ciente que teríamos de sentar para conversar, afinal o novo tema parecia muito longo. E foi o que fizemos, demos alguns passos para trás e sentamos nas mesinhas de xadres da praça. Ficamos por mais longos minutos.

Após a minha fala, comecei a ingnorar o que todos concordavam, o cansaço pesava muito sobre minha mente. Olhei de relance para a festa, e continuei a tentar entender os motivos daquela brincadeira com a fita. Até que notei algo estranho. Tive de esfregar meus olhos para relembrar do certo e errado. Não pude acreditar no que havia reparado. Todas as crinças estavam paradas exatamente na mesma posição que há trinta minutos antes. O vento balançava as fitas, mas as crianças ainda estavam no mesmo lugar.  

Os adultos repetiam suas expressões constantemente, eu não consegui fazer nenhuma leitura labial. Não falavam português, ou inglês. Poderiam estar visitando a família do mercado, mas me pareceu uma teoria pouco provável, tendo em vista que a família a qual me refiro veio do interior do estado, sem um centavo no bolso. Perguntei para meus amigos se eles estavam vendo o mesmo que eu, ou o cansaço estava pregando uma peça. A resposta pareceu-me um tanto desconfortante.

– Cara… não sei o que você está vendo, mas essas pessoas parecem programáveis. Acho que não quero ficar aqui pra saber se já estamos em um apocalipse zumbi. – Disse o Gustavo.

– Vocês precisam parar de assistir filmes. – Informou o Felipe.

Gustavo começou a fingir que estava tudo bem, mas não tirou os olhos da festa. E tentou prosseguir com a conversa. Foi quando ele sobressaltou e quase gritou:

– Puta merda!

– O que foi cara? – perguntei.

– Aquelas crianças são bonecos?

– Vocês estão com medo de crianças? Era só o que faltava. – Felipe gargalhou alto.

– Olhe você mesmo. – Convidei.

Felipe se levantou e andou até o fim da calçada. Em poucos segundos ele voltou com um olhar ainda mais amedrontado que o de Gustavo.

– Aquilo é… vocês precisam ver!

Andamos até o mesmo local. Lá podiamos ver claramente o final das fitas que as crianças supostamente seguravam. Nesse instante o ambiente pareceu gelar instanteneamente. Nós não conseguimos pensar em nada, além de imaginar uma fulga rápida e furtiva. As fitas estavam encravadas no peito das crianças, que sem expressão alguma permaneciam de pé.

Perguntei-me se aquilo poderia ser a crianção de um filme, uma série de TV, mas a realidade era clara.

– O que vamos fazer? – indaguei.

– Vamos pra casa! – implorou o Felipe.

– Não vamos tentar descobrir o que é? Podemos perguntar pra alguém. – Gustavo era bastante curioso e não tinha medo de tentar aprender.

– Se realmente for algo ruim estaremos completamente perdidos. – Retruquei.

– Deixe comigo. – Gustavo disse isso e se mandou para o meio da festa.

O problema surgiu quando ele viu que as fitas estavam vivas. Na verdade tinham boca, terrivelmente esquisitas e sugavam algo das crianças de modo que grandes bolhas se moviam dentro das fitas até o telhado do mercado. Ele se sentiu arrependido e tentou voltar, mas alguns adultos próximos começaram a se mover estranhamente em sua direção. Quando chegaram perto…

– Boa noite pessoal! Está tendo uma festa ótima não é mesmo? – Gustavo gagueijava. – Estava pensando se podia tomar um pouco d’água, mas não queria incomodar.

Os adultos olhavam para ele sem reação, mas continuavam a andar. Quando o medo foi mais forte do que ele, suas pernas se mexeram rapidamente compartilhando com sua garganta uma vontade de gritar por socorro. O grito chamou a atenção dos outros adultos no caminho. Enquanto Gustavo dava as costas para as pessoas, uma das fitas se moveu sozinha saindo de uma crinça cuspindo resquícios de sangue pelo chão. A criação caiu sem sustentação. Gustavo recebera uma das fitas em suas costas. Seu olhar se abriu em um desespero enorme. Ele parou de se mexer.

Os adultos voltaram aos seus postos com olhares nulos de expressão. Eu sabia que teria de fugir o mais rápido possível, mas o ato de deixar Gustavo naquela situação não pareceu uma boa opção, no entanto ao olhar para o lado enquanto tentava encontrar uma solução, Felipe havia entrado em pânico. Ele correu desesperadamente no caminho de sua casa. Atravessou a avenidade e estava bem distante das fitas, até que uma delas o alcançou e o arrastou de volta. Nesse momento, eu pude notar que aquela criatura se expandia e era muito maior do que aparentava ser. Eu não podia me mover, pois, aparentemente os movimentos bruscos haviam chamado a sua atenção. Tendo em vista que eu teria que combater os adultos da festa, não tinha nenhuma chance de sobrevivência.

Respeitei o momento mortífero e esperei. Fingi ser um deles imitando seu comportamento robótico. Isso pareceu funcionar, meus movimentos lentos pareciam não fazer efeito naqueles humanos esquisitos. Dessa forma, conduzi meu corpo lentamente até uma das árvores do parque. A fita sanguessuga não conseguiria ultrapassar a árvore, pelo menos imaginei essa possibilidade. Para a minha sorte, a árvore serviu para tapar a visão dos adultos ou talvez aquele monstro tivesse uma linha de visão sensorial, e eu estivera fora dela. Mas consegui correr.  

Minhas pernas frenéticas corriam como nunca. Eu poderia dizer que corri como se estivesse prestes a morrer, mas isso se tornaria verdade e não faria sentido sem a irônia. Então apenas corri.

Ao chegar na avenida principal meu corpo já estava cansado. A vida sedentária se fez ruim para a fulga. Mas um breve sorriso expressou a conquista de ter me afastado a tempo daquele lugar. Foi quando por um súbito pensamento, decidi olhar para trás… Os humanos esquisitos se aproximavam a uma velocidade incrível. Tive de retomar o fôlego sem saber de onde buscar forças. Em mais um momento de desespero me joguei por cima de um muro pequeno de uma das casas da avenida. Me agachei atrás do muro, imaginando que os adultos não tivessem me visto.

Alguns minutos depois, na mesma posição, acreditei fielmente na minha vitória. Levantei o corpo devagar, por cima do muro. Quando meus olhos começaram a enxergar algo, recuei num sobressalto ao ser atacado por um dos adultos, que abriu a sua boca em um grito inumano colocando para fora sua língua que era uma réplica das fitas sanguessugas.

Felizmente, o suor que deixei na cama passou a ser perceptível. Notei por um instante que o pesadelo havia sido o suficiente para destruir por completo o sono daquela madrugada.